terça-feira, 25 de julho de 2017

Eberth Vêncio / Como saltar de um prédio sem ferir a multidão lá embaixo



Como saltar de um prédio sem ferir a multidão lá embaixo

Eberth Vêncio 

26/01/2013 ÀS 12:52 PM


O pobre Coitado (Sim. Isso mesmo. Seu nome era Coitado.) tomara a decisão mais radical da sua vida: suicídio. Lá estava ele (eu me lembro como se fosse hoje) com aquela cara aparlemada, sentado no beiral do terraço do Edifício Fácil. Vestido sempre com as mesmas roupas desbotadas, parecia uma personagem de desenho animado. Não somente o pano velho do vestuário, mas, a vida, para ele, já tinha perdido todas as matizes.
A gota d’água: flagrou a esposa ouvindo sinos com um terceiro dentro do ofurô do barracão (por “ofurô” leia-se “tanque de alvenaria com três metros cúbicos de água fria”). O pegador não era outro senão um seu primo-compadre, o feirante Nabucodonosor, mais conhecido no bairro como o Rei Nabo, por ser muito bem dotado em matéria de hortifrutigranjeiros.
Com tantos adultérios proliferando por aí a todo instante, o episódio do affair dentro do tanque poderia parecer banal e démodé à maioria dos seres humanos sexuados, ao ponto de conduzir um sujeito à melindrosa decisão de se autodestruir. Acontece que a decepção com a companheira foi apenas mais um grão de areia na gigantesca duna de justos motivos que Coitado carregava sobre os ombros.
Analfabeto desde que nascera (ai!), Coitado morava mal à beça num casebre de invasão às margens do Córrego Caganeiras. Saía pela cidade puxando a carrocinha baú feito um cavalo, a catar papelão, plástico, latinhas de alumínio e toda espécie de lixo urbano que pudesse render alguns trocados na usina de reciclagem. Assim como se faz aos dejetos inorgânicos, ele tentou, sem sucesso, reciclar os pensamentos ruins: precisava largar aquele serviço, a mulher, os problemas, a vida enfim, que estava mesmo — tal e qual aquele ribeirãozinho fedorento — uma verdadeira merda.
Nos últimos meses enveredara na pinga e no álcool absoluto 92,8 graus. Certa feita, como estivesse sem moedas, cismou de degustar etanol furtado de um veículo e quase virou ao avesso de tanto vomitar. O casal tinha cinco filhos, sendo quatro meninas (todas já iniciadas — por puro desamparo e deseducação — na fornicação, na gravidez precoce, na parição desenfreada ou no aborto clandestino) e um rapagão que, para desgosto de Coitado, assumira recentemente, na efervescência testosterônica dos seus 17 anos, que gostava mesmo era de homem. Coitado só não expulsou o filho de casa porque ninguém lhe dava ouvidos: nem a mulher, nem a prole, nem os ratos.
Coitado era franzino e seu corpo tremia como sói ocorre àqueles à beira de qualquer morte, no alto do velho Edifício Fácil, tantas vezes utilizado para espetáculos bizarros daquele naipe. Uma atenta plateia formara-se lá embaixo, visto que Coitado escolhera a dedo o horário do rush, numa das ruas mais movimentadas daquela maldita cidade. A Imprensa, sempre disposta a flagrar incríveis acontecimentos vendáveis no caos urbano, já se encontrava com as lentes a postos para cobrir o show de suicídio.
Fazia meia hora que Coitado estava posicionado no terraço, tempo mais que suficiente para aparecer nos principais canais televisivos do país. Seu salto mortal seria transmitido, ao vivo (que piada!), em cadeia nacional de rádio e TV. Seria injusto supor que a demora em saltar fosse premeditada. Afinal, Coitado não possuía nem comida em casa, quem dirá televisão.
Aliás, além da água salobra misturada com o sêmen dos amantes, aquele muquifo tinha praticamente nada, senão um amontoado de estranhos convencionados “família”, um grupo maltrapilho à margem da sociedade, sem a mínima condição de sonhar, um biguebróder miserável e com audiência nenhuma, do qual todos desejavam um dia escapar, entorpecendo-se, prostituindo-se, ou morrendo. Aliás, a esperança de que todo o mal se extinga um dia é a última de morre.
Coitado gritou lá de cima que era pra alguém dizer à desgraçada da sua mulher (o adjetivo grotesco foi copiado, ipsis litteris, sem qualquer exagero, por este escriba que se encontrava no meio da multidão naquela tarde modorrenta e fedendo a enxofre) que ele a odiava mais que a própria vida. Uma vizinha do casal, igualmente imersa em miséria, correu e contou à mulher que Coitado estava na TV ameaçando pular do enorme Edifício Fácil. “Que pule, aquele corno...”, esbravejou sem nenhum remorso, sem vestígios de afeto.
Com a demora do bebum em saltar no vazio da tarde, o povão começou a vaiar. Vocês sabem, movido por um curioso sentimento interior, o Homem nunca está plenamente satisfeito com as coisas. Ora, a vida não é feita só de espetáculos. Todos ali precisavam retomar à rotina, tocar o barco, cuidar dos afazeres, cumprir os compromissos, atingir as metas, correr atrás de dinheiro, meter os pés pelas mãos. Não podiam permanecer a tarde inteira a aguardar que um derrotado pulasse do terraço e proporcionasse à massa alguns instantes de drama, emoção e pura adrenalina. Tanto assim que o coro “Pula! Pula! Pula!” não tardou a brotar. A galera insistiu. Uma cidade inteira não podia parar por conta das vacilações de um covarde. Era agora ou nunca.
Coitado ficou em pé na pontinha. A galera apupou. Os profissionais do resgate apressaram os passos para coibir o sujeito de consumar o ato. Mesmo à luz do dia, os flashes pipocaram. Evangélicos e outros crentes do rebanho balançaram as suas bíblias, rogaram com veemência, socaram o próprio peito a interceder junto ao Pai por mais aquele pecador. Lá de cima, Coitado enxergava um mar de bracinhos esticados segurando smart-fones. Ninguém — nem fodendo — deixaria de registrar aquela cena.
Ele balançou o corpo como se fora um centroavante na marca do pênalti, defronte a bola, a ludibriar o goleiro. Abriu os braços magricelos de veias salientes e gritou “ai, mamãe” (notem: na hora da morte, 100% dos Homens, mesmo os filhos-da-mãe, recordam-se das genitoras). Saltou no espaço. Bateu os braços como se fossem asas, imitando passarinho. Então, um esplêndido fenômeno fez com que ele levitasse, flutuasse sobre a multidão, misturando-se a um bando de urubus que desde cedo rodopiavam no céu, atraídos pela catinga diuturna de peixe podre do mercado.
O povo ficou insano, estupefato, decepcionado horrores com aquele viés kafkaniano de última hora. Foi quando um estranho (mais uma criatura invulgar dentre tantas) sacou uma pistola e disparou seis vezes. Abatido, Coitado perdeu a proa, abandonou seus penados colegas de revoada, e despencou no vazio, drasticamente, com o corpo desnutrido cravejado de projéteis que interferiram no seu projeto de voo panorâmico sobre a carniça. Como diria o cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda, “morreu na contramão atrapalhando o sábado”.
Respingados de amargura e sangue anêmico, os transeuntes despertaram daquele transe vespertino e foram cuidar das suas vidas. Exceto os urubus e o pessoal do IML, indispensáveis criaturas especializadas em se ocupar com os mortos.





segunda-feira, 24 de julho de 2017

Eberth Vêncio / Eu quero ser o próximo Papa

Francis Bacon

Eu quero ser o próximo Papa

Por Eberth Vêncio
22/02/2013

O Papa é pop, e o pop não poupa ninguém
Engenheiros do Hawaii

Pasárgada, 22 de fevereiro de 2013.
Carta dirigida aos cardeais da junta médica.
Rogo as Vossas Eminências que coloquem especial tenência nesta mensagem em que manifesto o meu real e inarredável desejo de pleitear o trono de maior mandatário da igreja, a ser desocupado nos próximos dias conforme amplamente noticiado aos quatro cantos do mundo.
Não me cabe julgar, analisar, lucubrar, intuir, criticar, zombetear, comemorar ou desconfiar dos reais motivos que fizeram com que o Papa-Almas Joseph Blater Mengele jogasse a batina e renunciasse ao cargo — um dos mais cobiçados que se tem notícia desde o Reinado de Elvis “The Pelvis” — embora todo cardeal negue, peremptoriamente, que o deseje ocupar.
Eu não. Abdicações franciscanas não me atingem. Eu não posso negar. Não sei mentir sem levar alguma vantagem. De tal forma que, sem falsa modéstia, eu digo e repito que estou no páreo desta sacrossanta peleja para o que der e vier; e é dando que se recebe (parodiando os políticos e as prostitutas desta pátria). E quando a fumacinha da cuia de santo-daime vazar pela chaminé doidona dos subterrâneos do Pelicano, é o meu nome que espero ouvir alardeado pelas trombetas de mil decibéis.
Tomei o cuidado de enviar as Vossas Eminências o mesmo perfil que utilizo no facebook sagrado (quero crer que cardeais também se amarrem em redes sociais), a fim de analisarem com a máxima misericórdia, durante o vosso conclave-de-sol, os requisitos que fazem de mim um dos candidatos mais atrevidos e tarimbados para assumir um cargo tão relevante a este mundo cão no qual latimos.

Sou latino, 47 anos de idade, portanto tenho muito incenso pra queimar em prol do crescimento e domínio da igreja, após a minha eleição. Sexo: masculino (obviamente). Espero que o fato de eu não ser um afro-descendente facilite a vossa escolha. Essa estória de “europeização do Poder” já está me dando nos nervos.
Nasci ao vigésimo dia do mês de setembro, portanto, signo de virgem. Uma vez virgem, é natural que eu também condene o uso da camisinha de força Made in China, o DIU, o coito em pé atrás da capelinha, as pílulas de ontem e as do dia seguinte também, o sexo anual, o orgasmo feminino enquanto instrumento de transformação social, as poluções noturnas nos lençóis de cambraia do internato, a poluição industrial em São Paulo e o Aborto Elétrico, antiga banda do Renato Russo (que Deus o tenha). É claro que eu também abomino o aborto, principalmente dos outros.
Nunca fui santo. Nunca fui padre. Mas decorei a bíblia de cabo a rabo (perdoem-me pelo palavreado vulgar) e as paredes da cela com miçangas de Aparecida do Norte e pôsteres do Padre Marcelo, do Padre Fábio e do Padre Huguinho-Zezinho-e-Luizinho. Enfim, a patota inteira estava lá.
Sexo antes do casamento: sou contra. Sexo depois do casamento: sou a favor, desde que 100% tolerado até que a morte os separe. Sexo depois das refeições: o perigo é a congestão. Portanto, se comerdes muitas hóstias, não dirijais vós imediatamente aos aposentos. Aguardai a santa sesta.
Eu também sou contrário aos questionamentos basais acerca dos bastidores das igrejas, da origem da vida e das reais intenções divinas no tocante à Humanidade; ao avanço da ciência; às pesquisas com utilização das células-tronco; às cédulas de 100 patacas sem a inscrição “O jardineiro é fiel”; e a denominar o próprio pênis como “tronco” (é muita grosseria e mau gosto!). Enfim, se precisarem de mim para queimar um astronauta ou um ateu na fogueira, contem comigo. Fé e gasolina não me faltam.
Tenho uma quedinha por carne de porco durante a quaresma, além praticar a auto-imolação ao menos uma vez por semana: costumo esbofetear a parte interna das coxas com um livro de capa dura do bruxo Paul Rabbit. Mas são defeitos que ainda posso corrigir. Juro remeter os colegas pedófilos mais problemáticos para tratamento com matemáticos da Esbórnia. Aos nove anos sentaram-me no colo de um sacristão novato e eu sei o quanto esses operários da evangelização-a-qualquer-custo sofrem daquele misto de tesão e culpa na Hora do Ângelus.
Considerando que Deus seja mesmo brasileiro, o fato de eu ter nascido em Safira do Norte faz de mim, além de um pobre miserável, mais um conterrâneo do Pai. Nunca antes na história clínica dos surtos psicóticos, um cardeal brasileiro foi eleito o Papa-Almas de Pasárgada. Portanto, penso que a hora seja agora, nem que, para tal intento, sejam recolhidos e trancafiados todos os utensílios banhados em ouro, os castiçais de marfim e a prataria chique do Pelicano. Se eu fui capaz de domar a natureza dos meus testículos até aqui, poderei controlar também a velha cleptomania. Quanto ao Banco do Pelicano, prefiro não ficar com as chaves para não cair em tentação. Certa feita, perdi as chaves do portão do manicômio e fui castigado com eletrochoques e a audição diuturna da Ave Maria na voz da Fafá de Belém. Amém.


domingo, 23 de julho de 2017

Eberth Vêncio / Valle a pena ler



Valle a pena ler


POR EBERTH VÊNCIO
EM 11/07/2009 ÀS 09:04 AM

Eu gosto quase nada dos aforismos. Desgosto deles porque quase sempre expressam a verdade. E verdades incomodam como aquela que diz “santo de casa não faz milagre”. O escritor Fausto Valle enquadra-se neste seleto grupo de relegados.
Mineiro da sulfurosa Araxá, Fausto veio para Goiás ainda atado às fraldas. Percorreu o interior do Estado e há anos reside em Goiânia, capital bonita cada vez mais entupida de carros e motos (a idéia do Governo de baixar o IPI foi mesmo “ótima”...), e com um povo ruim de entender milagreiros. Fausto Valle criou a filharada zelando dos filhos dos outros. Foi médico pediatra renomado e professor na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás, onde ajudou a formar mais doutores.
Hoje em dia, septuagenário, com a saúde física naturalmente rateando, mas o cérebro fumegando acima dos cem graus Celsius, o escritor gasta tempo com atividades na maçonaria e, especialmente, enfurnado em seu apartamento confortável onde faz literatura de alta qualidade. Tem oito livros publicados, a maioria deles pelas editoras Kelps e RF, ambas situadas em Goiânia. Não adianta procurar pelos títulos nas prateleiras das livrarias do eixo sul-suldeste do Brasil que vocês não vão encontrar de jeito nenhum. Entrem em contato com as editoras e providenciem os seus exemplares (usem a internet, companheiros!).
Escrever é um exercício de perseverança e gana, para não dizer o vício da tolice. Além de pouco valorizado pelos seus pares goianos, Fausto ainda não conseguiu distribuir a sua obra fora das fronteiras, senão através da remessa pessoal de exemplares aos críticos literários e amigos escritores Brasil afora.
É aquela velha estória: escrever, publicar um livro, até que é fácil. Basta ser alfabetizado, ter noções básicas do “word”, e possuir algum dinheiro sobrando no banco. Difícil mesmo é colocar o livro dentro de uma livraria e fazer com ele chegue às mãos do leitor. Se o gênero for poesia, então, esquece. Os infames livros de autoajuda (sim, eu os considero infames), desde que tenham um título didático, chamativo, e uma capa bem produzida, correm o risco de venderem um pouquinho. Afinal, o povo está a cada dia mais aturdido e necessitado de placas que sinalizem aonde ir. Estamos perdidos...
Ao contrário do Senado e do Congresso Nacional, nem tudo são horrores. Fausto Valle tem visibilidade e reconhecimento junto ao público interessado em literatura que vagueia pela internet, inclusive fora do Brasil, em países nos quais se fala e se fere a língua portuguesa. Feri-la por descuido, até que é perdoável. Cruel mesmo é maltratá-la por preguiça e desinteresse.
Fausto Valle começou a se embrenhar na literatura pelas portas da poesia. É poeta dos bons, conforme se atesta nos livros “A fonte de sal”, “Cravos sobre a mesa” e “Aldeia absurda”. Absurda de verdade é aldeia goiana que vive buscando noutras plagas, por ignorância, desdém e preconceito, escritores que valham a pena serem lidos.
O poeta Gabriel Nascente, por exemplo, é outro que também produz literatura em território goiano, tem uma obra formidável subestimada pela comunidade local e por grande parte dos nossos educadores, estudantes, em especial, nas escolas particulares, mais preocupadas em sanar a inadimplência dos alunos caloteiros e os adestrar para o escroto suplício dos vestibulares, do que primariamente os educar. O poetinha Gabriel (este tem nome de anjo, mas também passa ao longe da santidade, graças a Deus...) possui mais de trinta livros publicados, é um poeta extremamente talentoso, mas fica teimando poesia aqui no Goiás. Contudo, o tema desta crônica não é o vate Gabriel. Voltemos ao Fausto.
Nos últimos anos, ele dedica o seu labor literário à prosa. Dos oito livros já publicados, três são constituídos por contos. “Além do vão da janela”, publicação mais recente, reúne vinte contos inéditos do autor. A antologia é um autêntico balaio de gatos (no melhor dos sentidos: balaio bom, gatos de raça) que deve agradar a todos os gostos. Uma colcha de retalhos bem cosida e que não deixa o leitor com os pés nem com as cabeças descobertas, à mercê das muriçocas ou da friagem. Predominam estórias ambientadas no meio rural e nas cidades interioranas, contudo, sem aquela chatice reticente do palavreado chulo e errôneo que se fala na roça, infestando os livros rotulados de “regionalistas”. Êita, rótulo maldito...
O livro “Além do Vão da Janela” parece bolsa de mulher. Há de um tudo ali dentro. Estórias fantásticas, o sobrenatural, violência nua e crua, maldade, traições, suicídio, crises existenciais e outros dilemas humanos com os quais nos identificamos. Além da diversidade que atrai e captura, na estrutura do livro se percebe a categoria do escritor, a sensibilidade e lirismo, além do evidente conhecimento de causa e da língua portuguesa. Pode-se dizer, sem a mínima intenção de depreciar, que o escritor sai disparando para todos os lados. É atirador de elite, pistoleiro experiente que mata dando vida (?!). O tiroteio dura o tempo inteiro, pois as estórias são construídas com esmero e técnica, invejados atributos dos autores competentes. Lê-se o livro numa só sentada. Enfim, uma obra que “valle” a pena, a tinta e o papel.
Quem se interessa pela literatura feita no cerrado goiano, sabe que Fausto Valle é um poeta que joga de titular na seleção dos escritores tarimbados. Parece ter pendurado suas chuteiras de bardo. Mergulhou fundo na prosa como se fora nas águas amareladas e barrentas do Rio Araguaia (é urgente que se preservem as matas ciliares, mas os bons escritores também!). Apesar de não ter formação acadêmica em literatura, estou convicto que o Fausto figura entre os melhores contistas da atualidade. Seu azar foi fincar raízes fora do grande “eixo do mal” que controla e monopoliza a literatura no Brasil. O pior pecado, entretanto, quem comete são os seus conterrâneos, leitores que negligenciam os bons autores da terra, bem ao estilo roceiro, como se fossem bezerros enjeitados. Os escritores inábeis que se autoelegem imortais em saraus baratos regados a “risoles” frios e refrigerantes “diet”, estes sim, devem mesmo ser apartados.
Fausto Valle, repito, não é santo. Apesar de viver próximo à cidade de Trindade (terra milagreira onde o povo temente peleja e reza), não opera milagres. Mas já deixou cravada a sua decente marca na literatura brasileira. Confiram.
 


sábado, 22 de julho de 2017

Nabokov rejeitou parte da adaptação de Kubrick para Lolita

Nabokov rejeitou parte da adaptação de Kubrick para Lolita

POR  EM 19/12/2012 ÀS 09:10 PM
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O diretor de cinema Stanley Kubrick (1928-1999) adorava literatura. Ou, pelo menos, adaptar obras literárias para o cinema. Um de seus filmes mais conhecidos, “Laranja Mecânica”, de 1971, foi baseado no livro do escritor inglês Anthony Burgess. Este não gostou muito do filme, mas admitiu que não é dos piores. “Laranja Mecânica” permanece cult. A esquerda brasileira o adora, menos pela linguagem, e sim pela denúncia do totalitarismo estatal. É incrível: um joyciano de esquerda!
Outra grande adaptação de Kubrick — um diretor de qualidade, mas superestimado, como quase todo “cult” — é “Lolita”, de 1962. A adaptação foi feita pelo próprio autor do romance, o russo-americano (talvez um sem-lugar) Vladimir Nabokov, um grande escritor às vezes desvalorizado pelas modas. Depois de edições desleixadas da Record, com as versões de Pinheiro de Lemos, editoras de qualidade, como a Companhia das Letras e a Alfaguara, redescobriram sua prosa — na qual há uma mescla, intencional, de traços antiquados e inventivos (talvez a intenção de Nabokov tenha sido “inovar” o romance russo do século 19). O complexo romance “Fogo Pálido”, uma das histórias mais inventivas da literatura universal, ganhou tradução precisa de Jorio Dauster e Sérgio Duarte. Mas o autor das orelhas é no mínimo descuidado. Em vez de Kinbote, com “n”, como está no livro, escreve Kimbote, com “m”.
Mas, seguindo os diretores que se acreditam autores (“O Gênio do Sistema — A Era dos Estúdios em Hollywood”, de Thomas Schatz, demole a “teoria” de “cinema de autor”), Kubrick mexeu no roteiro. O texto “Nabokov duela com seus críticos e afirma que só há a escola do talento” mostra a insatisfação do escritor. É possível discordar de Nabokov e, claro, de Kubrick.


O filme, nos seus longuíssimos 152 minutos, pode até ser chato e modificar a “poesia” do texto original, mas, como cinema, é belo, não parece inatual e continua universal. A arte não raro esbarra no moralismo ao relatar comportamentos, por assim dizer, socialmente inadequados, como o de Humbert. O moralismo é necessário, mas não é útil para compreender fenômenos humanos, ainda que sejam anomalias condenáveis, como a pedofilia.
Claro que não é fácil comparar livro e filme. São linguagem diferentes e a invenção formal não é possível de ser adaptada por intepretações (fica incompreensível ou chatíssima) e imagens. Portanto, difíceis de comparar com argumentos simplistas — tipo: “O livro é superior”. Óbvio que, para quem gosta de literatura, o melhor está no livro. Porém, para os amantes de cinema, o filme interpreta bem o essencial do romance. Bem adaptado ou não, o filme sustenta-se em pé e não faz feio. O que, no fundo, deve ter desagradado Nabokov é que a película “roubou” parte da fama do livro. “Lolita” tornou-se, por assim dizer, mais de Kubrick do que de Nabokov.


Sem o filme, feito apenas quatro anos depois da publicação do romance, a repercussão de Na­bokov seria muito menor. Então, há um probleminha que nunca vai chegar a ser um problemão: o cinema às vezes simplifica, reduz e até distorce uma obra literária — Henry James perde ambiguidade e ganha solenidade nos filmes adaptados de seus romances, principalmente “A Taça de Ouro” e “As Asas da Pomba” —, mas é visceralmente útil como peça publicitária pra divulgá-la para um público mais amplo. Não há dúvida que, se as pessoas continuam comprando e lendo romances, é certo que o índice de leitura caiu — o que é camuflado por leitores que o fazem para prestar concursos (ou exigência escolar, quando um livro se torna, não um objeto de prazer, e sim um cadáver), porém não têm interesse genuíno em romances, contos e poesia. Os “citadores” do Facebook e do Twitter descobriram os lugares certos para colher frases de efeito, extirpadas do contexto, e as republicam à exaustão (chega-se a confundir autores com personagens). Mas não sabem citar nem mesmo as obras de onde foram retiradas. As redes sociais reforçam a tradição bacharelesca do Brasil.
Com acertos e desacertos e choques de opiniões (de Nabokov e Kubrick), “Lolita”-filme enriquece a leitura de “Lolita”-romance. Evidente que o grande criador, o ponto de partida, continua sendo Nabokov e há histórias paralelas, detalhes enriquecedores, que não aparecem no filme (nem em 500 minutos seria possível adaptar tudo).
Vale acrescentar: “Lolita” não é a principal obra de Nabokov. O romance sobre a ninfeta que “faz” um homem de meia-idade ficar apaixonado — ou seria o velhusco que a teria seduzido — chamou atenção para sua obra e, ao mesmo tempo, criou aquela fama estranha, enviesada, de que Nabokov “é o autor de ‘Lolita’”. É mais apropriado sugerir que Nabokov é também autor de “Lolita”. Mas isto é filigrana.


sexta-feira, 21 de julho de 2017

Sylvia Kristel / Para sempre Emmanuelle


Sylvia Kristel

Para sempre Emmanuelle
POR EBERTH VÊNCIO 
EM 24/11/2012 ÀS 11:27 AM


Faz-se pertinente e justíssimo o seguinte preâmbulo: o erotismo (ou a pornografia, sei lá, alguém aí, por favor, me acuda!) ficou mais brocha com a morte da atriz holandesa Sylvia Kristel. Corroída aos 60 anos de idade por um câncer de garganta, Sylvia gozou (sem trocadilhos, senhores!) de enorme popularidade em motéis, saunas, cinemas e banheiros domésticos do mundo inteiro, por conta da lasciva personagem Emmanuelle, diva da sacanagem cinematográfica nos anos 70. Ao concluir a redação desta crônica, haverei, sim, de render à musa das bolinações genitais vespertinas, um derradeiro e comovido tributo. Mãos à obra! Vamos ao texto, que o tempo urge...

Meretrício por meretrício, eu prefiro a companhia simplória da pseudo-universitária Emanuele (codinome abrasileirado, escrito faltando um “eme” e um “éle”). Mentira por mentira, eu escolho as enganações de Maria da Anunciação — a iletrada (e desletrada) Emanuele — cuja alcunha foi a ela imposta, ainda nos primórdios da prostituição na cidade de Pasárgada, ocasião em que, impulsionada pela condição miserável de vida, patrocinada pela mãe alcoólatra, contava 14 anos incompletos e 40 quilos mal pesados.
Não me condenem! Não me atirem as suas pedras! Não me tratem como a uma Madalena com um pênis entreaspernas. Conheci as lides alcoviteiras de Emanuele já na adultidade, no auge da sua tarimba profissional. Tenho lá também os meus lamentáveis e desprezíveis momentos de humanismo (muitas vezes, eu sofro de recaídas, esqueço que sou bicho, e me permito humanizar).


Acontece que, prostíbulo por prostíbulo, apraz-me sobremaneira tomar o uísque assumidamente desonesto da boate Buraco Azul, onde Emanuele faz carreira, que beber o café “kopi luwak” — produto importado da Indonésia, cujos grãos são extraídos das fezes de um animal chamado “civeta” — com deputados federais nos subterrâneos do Congresso Nacional. O café coado com grãos catados do coco de um bicho até que é gostoso, mas, a bancada parlamentar é uma merda.
Enquanto secamos uma garrafa de conhaque ordinário, Ema (intimidade permitida tão somente aos fregueses corriqueiros, fidelizados) abre as coxas e o jogo para mim: “Ah... o que eu não daria pelo velho papai-e-mamãe...” (aos leitores impolutos eu explico: o termo papai-e-mamãe diz respeito à manobra copulativa mais utilizada por casais heterossexuais em todo o mundo — perde, quem sabe, para o sempre rápido e utilíssimo coito em pé atrás do muro — no qual o sujeito se encaixa dentro do quadril da amada, executando movimentos uniformes, coordenados, ritmados, desferidos de cima para baixo, até que ocorra o famigerado desmancha-prazer chamado orgasmo).


Com a sinceridade etílica que falta aos padres durante as suas pregações regadas a vinho, Emanuele reclama que, ultimamente, só tem saído com clientes com gostos esquisitos. Recentemente, foi contratada por um homem miúdo, de meia idade, o qual gastou os trinta minutos a que tinha direito sugando-lhe os dedos dos pés, um a um, a despeito dos alertas da contratada quanto ao risco das unhas encravadas e frieiras. Ao contrário do que ela supunha, a interpelação sanitária só fez crescer no homem a excitação, deixando-o ainda mais submisso, diminuído, realizado e, claro, feliz à beça.
Há poucos dias, ela fizera um programa com um postulante a pastor, sujeito de convicções religiosas fragilíssimas. O jovem gorducho pediu (Emanuele conta que ele fazia o estilo “amante dominado com uma levada masoquista”) que ela utilizasse uma edição antiga e luxuosa do Velho Testamento, com capa dura cravejada de penduricalhos, para esbofeteá-lo bem na cara, sem dó nem piedade.


A princípio, Emanuele temeu o ato herege, relutou em cumprir a fantasia do cliente, mas, profissa que é, ateia que é, sacou da publicação e aplicou no pedinte uma surra de bíblia, enquanto este aguardava que o capeta saísse do seu corpo. Emanuele não tem certeza se o capeta saiu ou não saiu, mas o sangue, este sim, saiu pelas narinas, assim como saiu do bolso dele uma nota de 100 patacas com a polêmica inscrição de rodapé “Elvis seja louvado”.
Que ninguém me excomungue, pois não estou aqui disposto a tomar o precioso tempo das pessoas e, supostamente, inventar estórias inverossímeis e caçoar das crendices. Não. A crença ou a descrença alheia não me dizem respeito. Tenho os meus próprios e profundos dilemas. Ocorre que as doideiras humanas não encontram similaridade no reino animal. Aliás, falando em animais, quando uma senhora adentrada na Melhor Idade (“Só se for melhor idade para os médicos e a indústria farmacêutica faturarem com a gente”, brinca a velhota Tia Gerusaleta) insistiu para que Emanuele incluísse no orçamento do programa a participação especial do seu labrador Rin-Tin-Tin, a meretriz refugou à treta.


O texto é besta, fraco, aviltante, de mau gosto, e não termina nunca? A coisa não para por aí, leitores. Nunca antes na história daquele lupanar, Emanuele experimentara um programa tão bisonho: o inédito encontro entre ela, um inexpressivo Deputado Foderal de Pasárgada e seu assessor para assuntos prostitutos.

No ménage à trois, ambientado num quarto barato como se fosse um gabinete de verdade, com jetom e tudo, o assessor exerceu um papel coadjuvante dos mais relevantes (?!), ao se passar pelo cidadão, um homem do povo, um eleitor de cabresto, um daqueles imbecis que trocam votos por tanques de gasolina, por exemplo.


Na encenação de alcova, Emanuele pagava (de mentirinha, é claro) 50 patacas por cada etapa do intercurso, as cédulas sendo arrancadas do bolso do cidadão comum (ali representado pelo assessor voyer) e colocadas, uma sobre a outra, na boca do parlamentar, entre os seus dentes amarelos, como se ele fosse um cão de guarda do Inferno de Dante.
Vagando sobre as quatro patas pela suíte imunda do Buraco Azul, salivando a sujidade das cédulas de dinheiro pelos cantos da bocarra, o deputado exigia mais propinas, mais comissões, mais doações não-declaradas para a campanha, ao mesmo tempo em que implorava ser chamado de mensaleiro safadinho, dentre outras adjetivações aqui impublicáveis.
O cliente só se deu por satisfeito quando quebrou o erário. Mas aí já era tarde demais. O povo já estava completamente fodido.


quinta-feira, 20 de julho de 2017

Marilyn Monroe e JFK / O governo dos Estados Unidos passava pela cama

Marilyn Monroe

O governo dos Estados Unidos passava pela cama


POR EULER DE FRANÇA BELÉM 
EM 23/03/2009 ÀS 08:02 PM

Forestier ataca Marilyn Monroe e John Kennedy sem dó nem piedade. Os dois competiam, aparentemente, para ver quem transava com mais pessoas. Até onde li, Marilyn fez sexo com 15 homens, a maioria gente conhecida, como Elia Kazan, Sinatra, Marlon Brando, Yves Montand, mafiosos, maridos (Joe DiMaggio e Arthur Miller, cujos chifres impressionariam o mais talentoso dos bois da raça gir
Leio, entre divertido e cauteloso (com as informações históricas, pois, apesar de uma extensa bibliografia, o autor não exibe as fontes com precisão), o livro “Marilyn e JFK” (Objetiva, 214 páginas, tradução de Jorge Bastos), de François Forestier. Nada tem de acadêmico e, portanto, o estilo é direto e o crítico de cinema escreve bem.
Forestier ataca Marilyn Monroe e John Kennedy sem dó nem piedade. Os dois competiam, aparentemente, para ver quem transava com mais pessoas. Até onde li, Marilyn fez sexo com 15 homens, a maioria gente conhecida, como Elia Kazan (jurava que o sujeito era bicha), Sinatra, Marlon Brando, Yves Montand, mafiosos, maridos (Joe DiMaggio e Arthur Miller, cujos chifres impressionariam o mais talentoso dos bois da raça gir). As feministas protestaram, mas quem se liberou primeiro não foram elas, e sim Marilyn.
Jack Kennedy transou, até onde contei, com 13 mulheres, sem contar as dezenas de prostitutas anônimas. Na lista cabem, além da nazista Inga Arvad, a bela Gene Tierney, Lee Remick, Audrey Hepburn e, claro, Marilyn. Kennedy fazia o gênero quase-coelho, 15 minutos no máximo, entre preliminares e aquilo propriamente dito. Às vezes, era só 20 segundos.
Recolho um trechinho da história do malévolo Forestier: “Marilyn, uma noite, aborda a questão do casamento com JFK, que está passando a mão em sua coxa e constatando que ela está sem calcinha. Jack responde com clareza, com a mão sobre a origem do mundo: — Serei candidato à Presidência. Não posso me divorciar. Marilyn abaixa os olhos. Não está habituada a que lhe digam não. Veremos depois da eleição, é o que ela registra. Enquanto isso, resta uma única coisa a fazer. ‘Let’s make Love’” (façamos amor). Kennedy queria governar mais a cama do que o país. Mas foi forçado pelo pai a entender que, quanto mais poder, mais cama. Jack adorou.
Na parte séria, porém menos divertida, Forestier revela que as relações da família Kennedy, sobretudo do patriarca Joe, com a máfia eram mais profundas do que se costuma imaginar. A promiscuidade era total.

Voyerismo a La Guerra Fria
Agência Estado
Durante seis anos, o maior símbolo sexual dos Estados Unidos e o senador que se tornou presidente tentaram manter em segredo um relacionamento amoroso. O caso não se tornou público por conta de precauções da imprensa, mas um farto material foi coletado pela espionagem da máfia, FBI e da inimiga KGB. Afinal, a América vivia a insanidade da Guerra Fria, o que justificava o voyeurismo do Estado, as chantagens, manipulações, eleições compradas e dinheiro ilícito.
Forestier conta, logo na abertura do livro, que se valeu de um defeito crucial para ir fundo na pesquisa: uma má índole. De fato, o fel transborda em quase todas as páginas, na construção do retrato de um casal doentio. Nascida Norma Jeane, Marilyn era uma manipuladora da piedade. Conhecida por comédias memoráveis como "Quanto Mais Quente Melhor", ela era, na verdade, segundo Forestier, uma atriz egoísta, que não se importava com os colegas. Utilizava o sexo como forma de conquista, habitualmente acordando em lençóis estranhos. Também era viciada em remédios, que criavam um sono artificial e um universo fictício, que a levaram à morte.
Talhado para ser presidente da República pelo pai, Joe Kennedy, ele mesmo um homem racista e afundado em negócios sujos, John era um político que se esquivava de problemas importantes e se concentrava nas mulheres, inúmeras, que frequentavam sua cama, para sexo de, no máximo, 15 minutos. Terminou assassinado, caindo no colo da primeira-dama, Jacqueline, que suportava o adultério em troca da fama. Sobre essa face podre da América dos anos 1960, Forestier deu entrevista por e-mail.
Como um chefe de Estado mantinha relações sexuais com tantas mulheres, e, ao mesmo tempo, comandava uma nação?
FORESTIER - Naqueles dias felizes, todos os jornalistas e escritores estavam cientes do fato de que o presidente exagerava, traindo sua mulher como um louco. Mas eles se sentiam obrigados a não comentar nada. Quando um cidadão enviou fotos de JFK com outra mulher, nenhum jornal publicou. Quando Phil Graham, o chefão do jornal "Washington Post", declarou publicamente que o presidente colecionava affaires e amantes, nenhuma revista divulgou. Havia um consenso: a vida privada do presidente estava além dos limites. Mas, como Kennedy conseguia governar o país, é um mistério. Como vivia doente, ele funcionava adequadamente apenas algumas horas por dia, tirando uma soneca às tardes e divertidas sestas à noite... Alguém disse que JFK gastou metade do seu tempo perseguindo as mulheres, e a outra metade pensando nisso. Acho que ele era muito rápido, com certeza.
No prólogo, você confessa ter a má índole necessária para escrever tal livro. Era preciso tanto assim?
FORESTIER - Sim. Se tentar dizer a alguém que Marilyn não era uma santa, mas uma mulher suja e manipuladora, você é olhado como louco. Se falar algo sobre a imoralidade de JFK, a mesma reação. Assim, para trazer a verdade, é preciso enfrentar preconceitos. E mau humor é um instrumento necessário. Sem isso, o jornalismo é possível. Meus melhores amigos são mal-humorados.
Marilyn Monroe tinha fama de ser uma mulher inteligente.
FORESTIER - Não concordo. Ela era uma mulher astuta, mas para usar as pessoas, provocá-las, deixá-las enfeitiçadas por ela. Marilyn também não era profissional, deixava a equipe de filmagem esperando, não decorava suas falas e era totalmente inacessível. Não tinha respeito pelos colegas de trabalho. Fez também estranhas exigências para a Twentieth Century Fox e, quando se tornou produtora, foi péssima. Sua inteligência era um mito. Além disso, ela era mentalmente insana e, como atriz, logo decaiu. Acredito que, se vivesse mais alguns anos, Marilyn acabaria internada em uma clínica, como sua mãe.
Por seis anos, JFK e Marilyn se relacionaram. Era apenas sexo? A relação era sincera?
FORESTIER - Acredito que, no início, era apenas sexo. Eles se conheceram quando JFK era um senador (casado) e Marilyn, uma starlet. Kennedy era incapaz de amar e Marilyn, incapaz de sustentar uma relação. Ambos eram carentes de amor. Em todo caso, descobriram uma forma de relacionamento. Ela lhe deu sexo, que foi seu melhor presente uma vez que era frígida (ela disse isso a seu analista); ele retribuiu com um sopro de energia e de esperança. Os dois eram desiludidos. De alguma forma, encontraram um raio de luz, algo que, por breves momentos, pareceu ser amor. Talvez eles tenham tido, durante um segundo apenas, uma verdadeira história de amor.
Seu livro traz alguma novidade sobre a morte de Kennedy?
FORESTIER - Não, nenhuma. Mas traz novidade sobre sua vida: era um homem cuja moralidade era inexistente. Ele foi criado por um homem crente que o dinheiro podia comprar tudo e que seus filhos eram de uma casta superior. Um pai simpatizante do nazismo, além de gângster. Ele legou valores desvirtuados aos filhos. E suas filhas não eram nada. Quanto à morte do JFK, penso que houve uma diabólica aliança entre os exilados cubanos e a plebe. No mês anterior, houve dois atentados contra a sua vida, com o mesmo modus operandi: um atirador com experiência cubana e, à sombra, um grande chefão da máfia, provavelmente Carlos Marcello.
A política atual é diferente?
FORESTIER - Sim. Pense no escândalo Clinton-Lewinsky. E Clinton não fez nem uma fração do que JFK estava acostumado. Estranhamente, os americanos se preocupam com a vida privada de seus líderes. Quando pararem com isso (como acontece na França, onde ninguém dá atenção com quem Mitterrand ou Sarkozy dormiram), então, a era dos escândalos sexuais estará sepultada. Quanto às "relações políticas", no sentido político, não, nada mudou. Eles serão sempre políticos - nada confiáveis para cuidar de seu cão por uma noite




terça-feira, 18 de julho de 2017

Clarice Lispector / Sou composta por urgências

Clarice Lispector

Clarice Lispector
Sou composta por urgências

Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas; minhas tristezas, absolutas. Me entupo de ausências, me esvazio de excessos. Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos...






Clarice Lispector/ Sou como você me vê

Clarice Lispector


Clarice Lispector

Sou como você me vê

Sou como você me vê. 

Posso ser leve como uma brisa 
ou forte como uma ventania,
Depende de quando e como você me vê passar.



Clarice Lispector / Já escondi um amor com medo de perdê-lo


Clarice Lispector

Já escondi um amor com medo de perdê-lo
Já escondi um Amor com medo de perdê-lo,
já perdi um Amor por escondê-lo. ...
Já expulsei pessoas que amava de minha vida,
já me arrependi por isso.

Já acreditei em amores perfeitos,
já descobri que eles não existem.
Já amei pessoas que me decepcionaram,
já decepcionei pessoas que me amaram.

Já passei...horas na frente...
do espelho tentando descobrir quem sou,
já tive já tive tanta certeza de mim,
ao ponto de querer sumir...

Já fingi não dar importância às pessoas que amava,
para mais tarde chorar quieta em meu canto...
Já acreditei em pessoas que não valiam a pena,
já deixei de acreditar nas que realmente valiam...

Já senti muita falta de alguém, mas nunca lhe disse.
Já gritei quando deveria calar,
já calei quando deveria gritar...
Já sonhei demais, ao ponto de confundir com a realidade...

Já chamei pessoas próximas de "amigo"
e descobri que não eram...
Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada
e sempre foram e serão especiais para mim.





domingo, 16 de julho de 2017

Eliane Brum / A não vítima


A não vítima

Um golpe na Internet reflete tanto o crime da sociedade contra as mulheres que envelhecem quanto a natureza complexa do amor



ELIANE BRUM
9 JUN 2014 - 08:18 CDT


Primeiro, o golpe.
Um homem se apresenta no Facebook dela, psicanalista e escritora. Ele mora nos Estados Unidos, mas é irlandês com mãe brasileira. É viúvo, tem dois filhos, um adotado, já adulto, de 25 anos, e uma adolescente de 13. Trabalha com geologia e faz negócios com petróleo. Tem 60 anos, sente-se sozinho, faz seis anos que se tornou viúvo e busca um amor para dividir a vida. Por inspiração da mãe, começou a buscar perfis de brasileiras no Facebook. Chegou até ela, explica, pelo sorriso da foto. Eles conversam em inglês. O inglês dele é melhor do que o dela, ele a corrige com carinho, a ensina. O inglês dela melhora a cada dia. Tornam-se presentes um para o outro, apesar da distância. Pelo Facebook e, cada vez mais, pelo viber. Ele acompanha o dia dela, ela acompanha o dele. Ele quer saber o que tem para o jantar, como foi o dia de trabalho, como ela dormiu, qual é a crocância do pão no café da manhã, o que a deixa triste ou feliz, do que ela tem medo. Ela, viúva também, com mais de 60 anos, filhos adultos com suas próprias famílias, descobre que se sentia só antes dele. Que, apesar de gostar do seu trabalho, de conviver com vários bons amigos, de ter uma vida rica de sentidos, faltava algo da ordem do essencial. Antes dele, ela tinha aceitado com demasiada facilidade que o amor e o sexo estavam encerrados para ela. Antes dele, tinha sido obediente demais ao sujeitar-se ao padrão social que impõe o envelhecimento da mulher como o fim do desejo – ou como a impossibilidade de despertar paixão. Percebe que lhe faz falta compartilhar o que chama de “o comum da vida”. E agora, a cada noite, ela diz: “Me acolhe nos seus braços”. E ele a acolhe. Ela dorme entre braços imaginários, mas tão reais. E a cada manhã, ele divide com ela o pão com manteiga, o croissant, a geleia de pêssego. Divide também as dúvidas, os sonhos dele de se aposentar em breve para viver outro tipo de vida, o passeio ao zoológico que ele faz com a filha, as demandas da bela casa em que ele vive e que ela já conhece por fotos. Conversas comezinhas, conversas tão importantes. Em determinado momento, ele faz um comentário picante. Gostaria de vê-la preparando o jantar de calcinha. Ela dá uma resposta seca. Ele recua, nunca mais faz nenhuma alusão. É um homem sensível, às vezes é possessivo, ela gosta. É como se ele a conhecesse por dentro, como se a tivesse conhecido desde sempre, porque a compreende. Mas não é um galã. As fotos que ele envia para ela, muitas, são fotos de gente comum, nem tão bem enquadradas, nem tão bem focadas, sempre posadas, como são as fotos de gente comum. Ele é um homem da sua idade, sem barriga tanquinho, sem músculos jovens, com as marcas do tempo, os cabelos brancos, entradas que anunciam a calvície. Como ela, que é bela, mas carrega todas as suas marcas. Ela surpreende-se consigo mesma. Não imaginava apaixonar-se por alguém tão “real” assim. Alguém que envelhece como um homem comum, sem nenhuma excepcionalidade, exceto a de estar presente, de compreendê-la tão bem, de querer estar com ela. E ele quer. Pergunta se ela estaria disposta a mudar-se para os Estados Unidos para tentar uma vida com ele, se seria capaz de ajudá-lo a terminar de criar a filha adolescente. Como ele poderia adivinhar que ela sempre quisera uma filha, mãe de meninos que era? Ela busca algo físico nele, encontra as mãos. Acha as mãos dele lindas, fortes. Mãos de homem. Quer as mãos dele sobre o corpo dela. Agora é mais sério. Ele virá ao Brasil só para vê-la, para descobrirem se o romance virtual realiza-se no concreto dos dias, se a pele responde ao toque, se é possível sonhar com uma vida juntos sem a mediação da tecnologia. Ela conversa com a filha dele pelo telefone. A menina diz: “Eu amo você porque você ama o meu pai”. Ela vai para Paris visitar um dos próprios filhos, e ele já conversa com a sua nora pelo celular. O filho dela está preocupado, questiona, duvida, aponta as incongruências da história. Ela não quer escutar. Cobre os buracos do roteiro com seu desejo de continuar vivendo um romance. Pesquisa hotéis no Brasil, peregrina com as amigas por lojas de lingerie. Ela sabe que a pele já não tem a elasticidade da juventude, que os músculos são flácidos, mas sente-se linda. Abre o provador mal coberta por rendas, sem pudor – onde foi parar o pudor? Pergunta: “Como eu estou?”. Ela sabe como está. Linda. Emagrece quase 10 quilos, já não sai na rua de qualquer jeito, sente-se desejada quando passa. As pessoas já não acreditam que ela esteja na fila certa quando se posta junto aos idosos no banco. Ela está ansiosa. Muito. Antes de vir ao Brasil, porém, ele fará uma viagem rápida à Nigéria, junto com o filho. Vão tratar de negócios de petróleo. Em seguida, virá vê-la. Ela prepara-se para a chegada dele. Imagina várias vezes por dia o momento em que ele emergirá da sala de desembarque do aeroporto. Se ele vai dar um sorriso quando a enxergar. Se arrancará sua calcinha, acertará o fecho do sutiã. Imagina o sexo. Não lembra quando foi tão feliz, tão inteira. No dia da viagem para a Nigéria, ele manda fotos dele de terno, roupas de viagem, uma pasta elegante de trabalho. Envia fotos de vários momentos, ela o acompanha quase em tempo real.
De repente, ele passa horas em silêncio. Ela preocupa-se, pede notícias. Quando ele finalmente responde, está arrasado. Foram assaltados no país africano. Os ladrões levaram cartões de crédito, dinheiro, documentos, tudo. O filho reagiu e está em coma num hospital. Ao final da mensagem, ele pergunta se ela poderia lhe emprestar dinheiro. Só 775 dólares para pagar o hospital e o transporte até o aeroporto. Ela então desconfia. Por que ele não procura a embaixada americana, por que não conversa com seus parceiros de negócios? Ela começa a achar a história mirabolante demais. Ele já tem o nome e uma conta de alguém que o ajuda, explica como ela pode fazer uma remessa de dinheiro do Brasil. Ela percebe que o tom dele mudou. Titubeia. Ele a pressiona, ela não gosta. Quanto mais ele pressiona, mais ela recua. A filha dele manda uma mensagem pedindo notícias do pai, preocupada com a falta de informações. Ela fica ainda mais desconfiada. Não dará o dinheiro, mesmo que isso signifique perdê-lo. O romance acaba. Ao voltar aos Estados Unidos, ele ainda diz para ela. Sua primeira crueldade explícita: “Você não respondeu para a minha filha. Você não tem condições de ser mãe”. Logo depois, o perfil dele desaparece do Facebook.
Ela faz o que poderia ter feito muito antes. Se quisesse. Se realmente quisesse. Pesquisa as fraudes do gênero na Internet. Descobre os blogs e sites brasileiros e internacionais sobre as quadrilhas que atuam no golpe cada vez mais comum. Vê supostas fotos dos criminosos. Vários homens amontoados num cubículo com seus lap tops no colo conversando com mulheres como ela. Mulheres como ela significando mulheres mais velhas e sozinhas, mulheres carentes e por isso mais frágeis, mais dispostas a acreditar no inacreditável. Mulheres já desacostumadas a serem desejadas. Enviando a elas fotos de outros homens, que possivelmente não saibam que são usados para seduzir. Imagens capturadas nas redes sociais, podem ser de qualquer um. Um golpe bem planejado, a vítima em potencial é contatada só depois de uma pesquisa na Internet. Inclusive de suas condições para manter um romance em inglês, o que no Brasil é um indício de pertencer pelo menos à classe média e, portanto, ter algum dinheiro guardado ou acesso à crédito. Para cada uma delas um perfil de homem, em imagens e história de vida, uma proposta que já sabem esperada por aquela mulher tão meticulosamente analisada. Para cada mulher uma abordagem, uma forma de se comportar, um rosto e uma personalidade correspondentes às fantasias dela, um enredo adequado àquela que expõe – pode ser mais ou menos, mas expõe – um pouco de si a cada dia nas redes sociais.
Ao seu redor, amigos e familiares não acreditam como ela, uma mulher tão inteligente, tão vivida, tão bem sucedida, tão conectada ao mundo, pode ter caído num golpe. Um golpe assim era para outras, não para alguém com seu perfil. Ela lê depoimentos de mulheres como ela que foram muito além dela, mulheres que perderam milhares de dólares que haviam economizado ou mulheres que se endividaram para manter o roteiro amoroso vivo. Lê entrevistas com supostos criminosos que contam como o esquema funciona. Naquela noite vê fotos dos quadrilheiros, que assume como reais – podem não ser, como as do amante não eram, mas ela acredita que sejam. Se antes acreditou no romance, agora acredita na fraude. Fica mal. Bem mal.
É a sua noite de vítima. “Eu os identifiquei com ratos. Parecia que ratos andavam sobre o meu corpo. Eu expus tanto a minha intimidade, e era para aqueles homens das fotos na Internet ou outros como eles. Um ao lado do outro, sentados no chão, falando com mulheres como eu. Me expus não com fotos da minha nudez, porque não faria isso, mas de forma muito mais profunda do que isso. Passei a noite encolhida, com os ratos sobre o meu corpo.”
É o segundo capítulo da vítima. A enorme vergonha de ter caído numa história como essa, que agora para todos aparece claramente como uma fraude desde sempre. E o discurso que corre por baixo, o discurso social. Nem sempre pronunciado, mas presente: “Então você achou que, aos 50, aos 60, um homem iria se apaixonar perdidamente por você?”. Agora é oficial, você não só é uma vítima, mais pobre e mais endividada depois do golpe, mas “uma mulher velha e burra”. E como espernear contra esse encaixotamento imposto às mulheres, depois de ter se entregado a um homem que jamais existiu? Depois de estar se sentindo uma “mulher velha e burra”? De intuir que se sentirá uma “mulher velha e burra” para sempre? É a aniquilação final.
Não necessariamente, porém. Pode ser. Ou não.
Essa é a parte mais interessante. Quando nos encontramos, ela queria denunciar o golpe sem se identificar. O desejo que me anuncia é o de que outras mulheres sejam alertadas para a fraude. É um desejo comum, eu o escutei muitas vezes. Há as vítimas que se calam por vergonha (ou por medo, no caso das que são violadas e espancadas). Essas ficam presas no lugar de vítima, precisam de ajuda para romper com o silêncio de algum modo e sair do lugar que as condena à imobilidade. Ou permanecem para sempre como estátuas aprisionadas num gesto que estanca a vida. Mesmo quando o ato que as vitima cessa, elas continuam vítimas, porque não conseguem dar sentido ao vivido e se inventar de outro jeito. Acreditam que só sabem ser vítimas, que vítima é tudo o que são. Agarram-se a essa identidade como se fosse a própria pele porque, por mais incômoda que seja, estão lidando com o conhecido.
E há aquelas que rompem com o lugar da vítima denunciando, seja à polícia, seja a outras mulheres, à imprensa, ao mundo inteiro. Criam um blog ou uma ONG, algumas passam a perseguidoras de seus algozes, outras ajudam mulheres que passam por experiências semelhantes a sair da paralisia. Essas deslocam sua posição no jogo. De certo modo, continuam identificadas com o vivido, que determina suas escolhas dali em diante, mas pelo avesso e de forma ativa. A pele de vítima já não as veste.
Conversamos por duas horas e meia. Conheço o seu nome e o seu trabalho, mas é nosso primeiro encontro ao vivo. Ao escutá-la, percebo que ela teve o seu momento de vítima, a noite dos ratos. Era necessário que assim se reconhecesse, porque foi efetivamente enganada. Era um fato. E não se nega os fatos. Mas, em seguida, é necessário dar sentido a eles. Sem isso, o lugar de vítima se cristaliza. Em vez de uma mulher complexa, com suas perdas e seus anseios, haverá apenas um arremedo dessa mulher, o da vítima que jamais supera sua condição. Sem criar sentidos que permitam seguir adiante, seria preciso acreditar na versão de quem tentou extorqui-la, a de que é uma “mulher velha e burra” que acredita em qualquer coisa, inclusive que pode ser amada e sexualmente desejada, apesar de não ser jovem nem ter um corpo de passarela.
Aceitar essa versão como a única verdadeira tem roubado algo muito mais importante do que dinheiro das mulheres que caem nessa fraude. Aceitar essa versão é cimentar o olhar social que permite que fraudes como essa aconteçam. É deixar-se enquadrar numa cultura que oprime as mulheres com o mito contemporâneo da eterna juventude. É acatar a ideia de que marcas e beleza não são compatíveis, de que desejo, paixão e sexo são prerrogativas limitadas pela idade.
Ela, não. Ela desfere um contragolpe.
Já não estou diante de uma vítima. Pergunto a ela: “Se você soubesse o que sabe agora, que esse romance é uma fraude, preferia não tê-lo vivido?”. Ela não hesita: “Preferia ter vivido tudo o que vivi. E ter parado exatamente onde parei. Ele me deu muito”.
Não é uma ilusão. Por paradoxal que pareça, ela ganhou muito. Enquanto viveu o romance, ele era real. O homem, que hoje sabemos que não existe, era real. Essa realidade a resgatou, dia a dia, de uma vida menos viva. “Eu precisava do olhar do outro. De um homem que não corresse quando eu dissesse a minha idade, que me lembrasse de que sou desejável, que me lembrasse principalmente de que quero compartilhar não o extraordinário, mas o comum da vida. Quero ter alguém comigo dividindo o café da manhã, compartilhando as experiências do cotidiano e também arrancando a minha calcinha. Estou aberta para isso e antes não estava. Ele me devolveu algo que estava anestesiado em mim. Às vezes era tão forte essa percepção que sentia como se tivesse voltado a ovular. De certo modo voltei, não biologicamente, mas de uma maneira mais profunda. Antes eu me sentia só um corpo mais flácido do que na juventude, um rosto marcado pela idade. O olhar dele foi o espelho onde eu pude me enxergar muito além disso, pude me enxergar como uma mulher, na inteireza do que é ser uma mulher. Ele não existe? Talvez seja um coletivo de pessoas conversando comigo para me extorquir depois? Mais um golpe sórdido? Não importa. Porque esse olhar sobre mim mesma ninguém pode me tirar, esse olhar agora é meu. Seja lá quem for, me despertou, me ajudou a resgatar a minha integridade como mulher, como pessoa, o muito mais que eu sou para além de um corpo que envelhece. Nesse sentido, sou muito grata.”
Para ela, talvez o conselho a outras mulheres seja: “Caia no golpe, acredite, mas não pague”. Mesmo os 700 dólares, que seria só o início da extorsão, seria um preço baixo a pagar pelo que recebeu, caso tudo se resumisse a uma troca de mercado. É uma brincadeira, claro. Para que ela possa manter a realidade do que viveu, mesmo depois de saber que se tratava de uma fraude, era preciso que fosse real em algum momento. O amor que viveu, mesmo depois de comprovado o golpe, é real no que nela produziu de realidade. Sob esse olhar, o maior lesado foi o golpista, que não viveu nem o amor, nem recebeu o dinheiro.
Se o golpe só funciona porque a sociedade ocidental determinou que mulheres deixam de ser desejáveis ao envelhecer, a maior perda seria não financeira, mas acreditar nessa construção social como uma verdade totalizante. Talvez essa seja a fraude maior, aquela que arranca dessas mulheres, dia após dia, algo muito mais caro do que dinheiro. Arranca-lhes uma dimensão da vida. Para esse crime não há polícia, não há quadrilha, não há materialidade. Para esse crime só existe a resistência, a não capitulação de cada uma.
Para esse crime há o que ela fez: o contragolpe. Ela mostra as fotos do homem que para ela agora é um ex-namorado, de uma história de amor que deu certo por algum tempo e acabou por razões bastante heterodoxas. Ela ainda está se despedindo dele, por isso as fotos continuam no celular. “Olha essas mãos, olha esse peito”, comenta. Eu não vejo nada que despertaria meu desejo, aquele homem não diz nada para mim. De certo modo, não é assim o amor? Uma verdade apenas para aquele que o vive, que vê no objeto do amor o que ninguém mais vê? O outro não é, em certa medida, uma construção, uma realidade particular daquele que ama, como mostra Ela, o brilhante filme de Spike Jonze?
Ela me parece bem. E uma mulher tão bonita.
Entre as mudanças que o romance produziu nela, está a de se descobrir capaz de se apaixonar por um homem possível. Não um padrão de beleza, não um cara mais jovem, um homem da sua idade, com sua bagagem particular de derrotas, perdas, desejos e sonhos. Passado, mas também presente. De novo o paradoxo: o homem que era uma fantasia a ensinou a acolher o homem real.
A cada vez que ela sai de casa, agora, arruma-se pensando que pode encontrar esse companheiro possível. Sem esquecer, jamais, que amar é um risco. Não só o da fraude, que ela acabou de viver, mas um risco ainda maior, que é o de não ser uma fraude. O de se arriscar ao outro, a ser alcançada por um outro. Um risco fascinante, que agora ela voltou a achar que vale a pena.
Quando nos despedimos, ela se preparava para pegar um avião para passar o dia com um velho amigo, um com o qual sabe que não viverá uma história cotidiana, mas que poderia abraçá-la naquele momento. Enquanto aquele, que ela ainda não conhece, estava atrasado para o café da manhã, depois de tanta expectativa ela achava que poderia ser bom ter um homem que simplesmente lhe arrancasse a calcinha. Ele havia lhe dito: “Venha, os ipês floresceram”.
Há alguns dias, recebi uma mensagem dela: “Os ipês, exatamente, não vi... Mas voltei florescida”.