quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Vera Felicidade de Almeida Campos / Vontade libertadora



Vontade libertadora

Romantismo

4 OUTUBRO 2016, 
VERA FELICIDADE DE ALMEIDA CAMPOS

O exercício de autonomia tem como trajetória a constatação, a realização, o aparecimento da vontade. Descobrir-se capaz de realizar planos, sonhos e propósitos cria firmeza estabelecedora de disponibilidade e de determinação. No contexto da autonomia, a rigidez, a firmeza permite flexibilidade, pois existe em torno do que girar. A vontade é um instrumento de mudança, de libertação, foi assim que Fichte, nos finais de 1770 e início de 1780 trouxe para a humanidade uma transformação considerável: não mais o “cogito, ergo sum” e sim o “volo, ergo sum” (“penso, logo existo” - “quero, logo existo”). Neste momento podemos dizer que, através dos ideais românticos, o homem recuperou seu lugar no centro do mundo com seu querer. Explode nas artes, na literatura, na poesia e filosofia, esta nova ideia; Nietzsche traz os deuses que dançam e anuncia a morte de Deus. É o “humano, demasiado humano” que se afirma.
Remanescentes desta vontade - do exercício da vontade como forma de enfrentar seus aniquiladores - são encontrados hoje na psicologia. A busca de individualização, o exercício de questionamentos terapeutizantes promovem a retirada do ser humano da alienação e submissão. É um ideal romântico no sentido do exercício da disponibilidade, do não compromisso com o que o aliena. O homem deixa de ser peça de engrenagem, individualiza-se e restabelece sua centralidade no mundo. Realizar anseios transcendentais transforma necessidades em possibilidades, confere ao ser humano a condição de dínamo propulsor de infinitas variáveis. Assim, o homem não se esgota em seus limites orgânicos, não permanece contido por construções sociais. Esta não submissão cria liberdade e faz com que a criatividade, a imaginação se exerça e deste modo literatura, arte, poesia pavimentam sua trajetória.
Esta possibilidade de dizer não, conforme Albert Camus a única liberdade, é o que faz a antítese, é o que estrutura a mudança, é o que faz o homem ser o centro do mundo e reedificá-lo. Mundo é o que os homens fazem dele, não é mais o que se recebe como dado, como natural. A própria dicotomia entre natural e criado é transformada: tudo é natural, tudo é construído, o que importa é o defrontar-se, o que importa é o diálogo com o existente, com o outro. Transformar, mudar, manter são as questões respondidas para soluções individualizadas, sem permeios de regras, por definição, defasadas e opressoras.
Questionar, ultrapassar limites são fortificadores da determinação escolhida como antítese ao que aliena. Este ideal romântico - tanto quanto questões mais amplas do romantismo de Fichte, Herder e Kant - traduz as novas dimensões do humano na contemporaneidade, gerando a percepção da própria individualidade, permitindo construção da autonomia, disponibilidade e liberdade. Os frutos de ouro destas atitudes são profusamente encontrados na literatura e na arte em geral. Infelizmente, este fenômeno não foi universal. A expansão realizada pelo colonialismo nos séculos XVII, XVIII e XIX nas colônias, com suas explorações econômicas, transformaram seus habitantes em massa de manobra, em matéria-prima para industria e agricultura, em bala de canhão, consequentemente, pouco restando do humano para criar autonomia, disponibilidade e liberdade que resultasse em literatura, arte e ciência não modelada pelos colonizadores.
Atualmente, horizontes de alienação, de massificação são os resíduos da trajetória humana. A vontade é rara, apenas estruturada como resposta a demandas contingentes, a demandas mercadológicas, mas, apesar disto, muitas sementes estão plantadas, germinando para novos questionamentos e consequentes mudanças.

WSI


Vera Felicidade de Almeida Campos


domingo, 18 de fevereiro de 2018

O homem como centro do mundo / Iluminismo, esclarecimentos situantes

Angelica Kauffmann. Madame Macabre

O homem como centro do mundo

Iluminismo, esclarecimentos situantes

4 SETEMBRO 2016, 
VERA FELICIDADE DE ALMEIDA CAMPOS

Um dos resultados mais questionadores e inovadores do iluminismo - século XVIII - foi colocar o homem, o indivíduo, como centro do mundo. Esta antítese ao absoluto - Deus - representado por seus supostos significantes - a Igreja, a realeza - abriu novas perspectivas para o humano, perspectivas posteriormente desenvolvidas em um movimento, uma ideologia, um legado social e jurídico: a Revolução Francesa. A partir daí, o lema “liberdade, igualdade, fraternidade” torna-se o resumo fundamental que passa a nortear a trajetória do homem ocidental. O homem é, então, igual a seu semelhante, nada os diferencia: nem aparência, nem origem ou posição social e esta igualdade se reflete nas leis e possibilidades da vida. Quando existem diferenças elas são determinadas pelos recursos econômicos a partir dos quais classificações de pobres e ricos expõem diferenças que não são intrínsecas ao humano, são circunstanciais, e ainda, geradas pelo acúmulo de riquezas continuadas do absolutismo anterior.
Ser centro do mundo fez o homem perceber que tudo que lhe acontecia dependia dele próprio. Esta libertação dos grilhões de crenças obscurantistas impôs a razão, o conhecimento como chave para abrir novos caminhos, para estabelecer progresso. Sem o iluminismo teria sido difícil chegar à industrialização, à transformação dos recursos existentes através de conhecimento de técnicas específicas.
Mudar, transformar, abrir caminhos se impôs ao homem quando ele ficou entregue a si mesmo. Foi uma radical mudança de modelo que possibilitou autonomia, semelhante à que ocorre na idade adulta, quando padrões familiares são transformados e questionados. O iluminismo enfatizou a razão com consequentes esclarecimentos, questionamentos, ampliação de perspectivas e horizontes e isto refletiu na sociedade em geral, em movimentos artísticos e também na religiosidade. O acesso a Deus não era mais exclusivo dos religiosos que vendiam “permissos”, tais como escapulários e “benzidos”, para que se atingisse a divindade. Intermediários diminuíram, ação direta se impôs mas também outros problemas foram criados: a constatação da fragilidade ou da força diante dos caminhos a percorrer.
Estruturas de uma nova forma de poder foram estabelecidas, reunindo autoridades dispersas e institucionalizadas. Já não basta ser livre, é necessário ser forte para enfrentar obstáculos determinados pelos poderosos institucionalizados. A liberdade se desdobra, torna-se enfático o lema “a união faz a força”. Comunidades são estabelecidas, solidariedade é exercida para que o homem se mantenha no centro do mundo. Nesta trajetória, decorrências mutáveis surgem e sob a forma de democracia muito desequilíbrio é gerado, polarizações que em algumas circunstâncias e panoramas sociais e econômicos permitem a volta de poderes absolutos: ditaduras que retiram o homem do centro e colocam, como centralidade, ideias, ideais e objetivos com a finalidade de transformá-lo em massa de manobra para a manutenção de máquinas de poder voltadas para afirmação de suas ditaduras e plataformas políticas aniquiladoras da liberdade, destruidoras da individualidade.
Novas configurações criam novas antíteses. Agora, recuperação do lugar central e legítimo do homem só é possível pelo exercício de autonomia frente a todas as forças que o alienam e escravizam. O que define o humano é o exercício de suas possibilidades ou a submissão às suas necessidades (que o transforma em mercadoria, o torna alienado). Sucumbir aos fundamentos exploradores dos novos sistemas, adoece, neurotiza, desespera, daí ser necessário enfrentar os problemas, questionar-se e assim gerar mudanças. Entender o que acontece é humanizador.


WSI


Vera Felicidade de Almeida Campos

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Constatação / Impasse e movimento



Constatação

Impasse e movimento

4 AGOSTO 2016, 
VERA FELICIDADE DE ALMEIDA CAMPOS

Mudança depende do impacto resultante de constatações realizadas ao longo da vida ou dos processos psicoterápicos. A constatação decorre sempre de questionamentos. É uma atitude possibilitada pela descoberta de que ocorre o que não se esperava ou imaginava ocorrer. Vida acomodada, psicoterapia de apoio e relacionamentos compreensivos, jamais questionam, jamais criam impactos, jamais provocam constatações, pois o caminho de constatar já é ocupado, trilhado pelo do reconhecimento das próprias fraquezas e qualidades, transformando-se em justificativa para validar os acontecimentos. E assim não há constatação, o que existe é reconhecimento do “caber na forma”, estar adequado/inadequado aos processos que ajudam e apoiam ou massacram e desestabilizam.
A constatação é sempre um impacto, enquanto as verificações geradas pelas avaliações de adequação/inadequação se constituem em reconhecimentos de existentes prévios. Por isso na constatação não existe familiaridade, é sempre o novo que se impõe, daí o questionamento que traz mudança - as certezas foram derrubadas. Lidar com estas novas configurações é abrir mão de posições anteriormente definidas que já não significam. Quando isto ocorre surge honestidade, surge coerência e reconhecimento das próprias motivações às vezes não detectadas, ou armazenadas no depósito geral da incoerência.
Sair desta linearidade - certezas e certezas - alça o ser humano a situações mais amplas, sejam as de disponibilidade, sejam as de contingências reveladoras. A amplidão das demandas ultrapassa os posicionamentos de certo/errado atribuídos por outros contextos e estruturas relacionais. As motivações individuais podem ser diversas da sociedade, tanto quanto as sociais podem diferir das regras familiares. Sem as amarras do compromisso, o indivíduo se defronta consigo mesmo e estabelece questionamentos que mudam dependências e ampliam seus horizontes. A mudança sempre quebra amarras pois ela sempre implica em movimento, em ampliação de panoramas vivênciais e relacionais. Sair de posicionamentos, movimentar-se é descobrir, constatar possibilidades, medos, encontros, desencontros; é também estar com o outro integrado ou desintegrado pelas novas constatações.
A mudança amplia ao quebrar posicionamentos, tanto quanto limita ao gerar implicações acerca de constatações inumeráveis que precisam ser vivenciadas - são os impasses. Quando a mudança gera impasse é fundamental não se apegar a resultados compensatórios. O sucesso poderá apenas trazer mais dúvidas, medo e manutenção, fazendo, assim, se jogar fora constatações desalienantes. É exatamente aí que se pode perceber como mudar e manter estão próximos, como as pontas do processo se encontram. O cotidiano psicoterápico sempre nos revela isto. É importante não perder de vista que as similaridades criam diferenciações responsáveis por questionamentos, por constatações, por movimentos gerados por teses e antíteses estabelecidas.

WSI

Vera Felicidade de Almeida Campos

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Vera Felicidade de Almeida Campos / Convivência / Medo e preconceito


Foto de Lee Jeffries

Convivência

Medo e preconceito

4 JULHO 2016, 
VERA FELICIDADE DE ALMEIDA CAMPOS

Estar no mesmo lugar, na mesma família, na mesma cidade é conviver com o outro, é conviver com outros. A simples proximidade é o que define a convivência entre pessoas, entre seres.
Proximidade engloba também a temporalidade e é tão abrangente nesta sua acepção que explica os conceitos de contemporaneidade e de antiguidade. Os cenários de convivência são vivenciados (nutridos) no agora, no antes e no depois, tanto quanto no perto e no distante.
Conviver é compartilhar o mesmo espaço, a mesma época, mas é também participar do que ocorre com o outro. A questão da participação na convivência é uma obrigatoriedade que foi reduzida a quase um não sentido de convivência, embora seja o que a mantém em termos de tranquilidade, ou o que a transforma em dificuldade, criando obstáculos, transformando os encontros em choques, disputas, querelas e discórdias. Estes aspectos de desarmonia comprometem convívios, pois as partes foram distorcidamente transformadas em totalidades, contextos à partir dos quais são definidos, são configurados os moldes de convivência. Já não é apenas o estar próximo, no mesmo espaço, na mesma família, que define a convivência: os vetores, as sinalizações que estruturam valores e regras criam grupos onde as pessoas sentem-se representadas e são deles representantes. O igual, o diferente, o estrangeiro, o considerado bom ou ruim são integrados ou desintegrados à partir destes significados. A convivência agora é entre iguais e entre diferentes.
Sociedades são conjuntos onde as direções, os espaços são definidos segundo padrões sócio-econômicos. Espaço de ricos, espaço de pobres, locais de deficientes são criados para que a convivência social não seja perturbadora. Zona de craqueiros[1], espaços proibidos e limites de morte - em certas aglomerações urbanas - estabelecem o sentido do ir e vir. Há o proibido, o permitido, o que vai causar prejuizo, morte, tanto quanto outras situações, outras avaliações podem levar à fama e poder. Os lugares significam em função do que neles circula e por onde eles se encaminham, desde igrejas, hospitais, prisões até às antessalas do poder.
A questão da convivência já não é uma questão aberta, contínua, não é típica dos seres humanos, ela é uma encruzilhada representativa de tudo que deve ser selecionado, continuado e descontinuado: preconceitos, medos, ansiedade, insegurança preenchem estas lacunas, suportam estes tentáculos. Valores criam espaços, estabelecem limites, permitem inclusão, invasão e ameaça. Áreas de pobreza, em qualquer periferia das cidades, geralmente têm dejetos a céu aberto, frequentemente criando espaço para convivência com outras espécies distintas: insetos ou até mesmo baratas e ratos criam problemas e doenças, destruindo os homens que com eles convivem. E assim, conviver com o outro é totalmente diferenciado em função destes valores sociais e econômicos, uma convivência geradora de conflitos e dificuldades, bem diferente das situações onde conviver é situar-se em relação ao outro, a si mesmo e ao mundo, questionando, abraçando, descontinuando, continuando o que está em volta.
A lucidez, o questionamento impedem que o homem seja transformado em objeto, possibilitando espaço de convivência, tanto quanto de diálogo, encontro e interação criadora de convivências significativas e humanizadoras.

Nota

Craqueiros: usuários de craque. Algumas cidades brasileiras têm zonas onde viciados em craque vivem ou passam horas e dias entregues ao consumo da droga.




Vera Felicidade de Almeida CamposVera Felicidade de Almeida Campos



domingo, 4 de fevereiro de 2018

Merecimento e direitos / Relações coisificantes e alienantes iniciadas na família

Merecimento e direitos

Relações coisificantes e alienantes iniciadas na família

4 JUNHO 2016, 
VERA FELICIDADE DE ALMEIDA CAMPOS

“Não tenho direito a nada, mas mereço tudo” é o refrão, a oração constante das vítimas, daqueles que sempre se sentem prejudicados na contabilidade dos empenhos, promessas e desejos não realizados. Ter se sacrificado, tudo ter feito em prol dos outros ou de uma situação, é pensado como trunfo, como aval de garantia de tudo merecer.
Nada mais alienante, nada mais coisificante para o indivíduo, para o ser humano, tanto quanto para suas relações sociais e familiares, do que a certeza de merecer, mas não ter direitos, e quando esta divisão entre o indivíduo e o outro, quando estas fragmentações existenciais são vivenciadas como “não tenho direito a nada, mas mereço tudo”, este postulado inicia um processo de revolta, exacerbando medos e frustrações criadas por estar submetido ao outro, a seus desejos e vontades, por vezes, desumanas.
Sacrifícios, renúncia e perdão são os sustentáculos das relações coisificantes e alienantes, principalmente no âmbito familiar. Perceber o que está em volta reduzindo-o à situações convenientes ou indesejáveis estrutura um forte sentido de oportunidade. Insistir em aproveitar as brechas que surgem, cria atitude oportunista, que se caracteriza em esconder incapacidades através de ajudas ou artifícios, transformando-as em capacidade de conseguir através do outro, ou melhor, usando o outro.
Este direito de usar o outro é reivindicado e neutralizado pela idéia de tudo merecer. Cheio de planos, metas e desejos responsáveis por frustrações, medos e ansiedades, o indivíduo sofre, e assim, se sente vítima do sistema e das pessoas. Lidando com esta distorção de se sentir centro do mundo - distorção criada pelo autorreferenciamento - cresce a idéia do mérito não reconhecido, aumenta a impressão de não ter os meios necessários à vida, de não ter a mínima retribuição aos sacrifícios e ações realizadas. Esta avaliação, geradora de frustração, é responsável pela exigência de receber e de ter direitos assistidos e mantidos.
Não ter direitos, nada receber em função de tudo que acha merecer, cria derrotados, reclamadores e insurgentes que tudo recebem, tudo pedem, tudo negociam para conseguir suprir suas necessidades e desejos, agora catalogados sob o rótulo de merecimento.
Mesmo quando se insurge e se sente explorado nas relações de trabalho, ou quando socialmente discriminado, o refrão “não tenho direito a nada, mas, mereço tudo” é mantido, embora tenha suporte na constatação dos processos de espoliação e uso pelos dotados de poder e de capital, pois, no contexto autoritário, assistencial e meritocrático, as contradições não são percebidas, apenas se enxerga os grandes vazios e a sensação de falta: fome e carência que urgem ser preenchidas.
A gravidade dos posicionamentos entre direitos e merecimento resultam da divisão e oposição entre os mesmos. Avaliar é reduzir a valores, geralmente incompatíveis com o processo relacional de estar com o outro. Quebrar esta unidade relacional é estabelecer posicionamento de vítima, de senhor; merecendo, castigando, premiando. Ao quebrar a relação dialética, estabelecem-se posições: surge o superior-inferior, surge o senhor-escravo, o doador-dependente e assim a despersonalização, a divisão é construída, construindo-se também demandas, renúncias e queixas.
Quando os pais se relacionam com os filhos através de recompensas e castigos, constroem escalas de valores e merecimentos referenciados nos processos de submissão e frustração, que mais tarde vão se atritar com os outros nas diversas situações onde o compromisso, a barganha e a chantagem podem ou não imperar. Até perceberem que não é preciso “dar para receber”, “mentir para disfarçar”, as pessoas se sentem estranhas, sem pertencimento, sem saber como agir.
Quebrar a unidade sempre pulveriza a personalidade e cria autômatos doadores e/ou dependentes. Pródigos e mesquinhos começam a povoar o mundo, criando ordens utilitárias e propósitos dilapidadores das possibilidades humanas.



Vera Felicidade de Almeida CamposVera Felicidade de Almeida Campos

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Por que linguagem? / A fala é uma das digitais mais individualizantes do ser humano


Por que linguagem?

A fala é uma das digitais mais individualizantes do ser humano

4 MAIO 2016, 
VERA FELICIDADE DE ALMEIDA CAMPOS


Perceber é conhecer pelos sentidos. Cheguei a esse conceito graças à unificação feita pelos gestaltistas alemães, entre o que se chama sensação e percepção. Para eles não havia uma sensação captada pelos sentidos e uma percepção organizadora desses dados sensoriais. Não existiam duas funções: uma de captação e outra de organização. O que se sentia era o que se percebia e já era organizado. A abordagem dualista anterior implicava em um elementarismo fundamentado na ideia de que o todo é a soma de suas partes e, bahavioristas e psicanalistas, também eram adeptos dessa visão: os primeiros, quando reduziam o comportamento humano aos processos de aprendizagem resultante do condicionamento dos reflexos incondicionados e os segundos, ao explicar toda a vida emocional e sexual do homem pelos processos inconscientes, para eles o fundamento e motivo de toda vivência humana.
Essas abordagens implicavam em entender o homem separado do mundo, antagônico à sociedade, ao mundo. Os behavioristas tentavam resolver essa separação através dos conceitos de adaptação e condicionamento e os psicanalistas, através dos conceitos de conscientização e sublimação dos desejos.
Ao iniciar meu trabalho psicoterápico no final dos anos 1960, era isso que existia no campo da psicologia clínica.
Beneficiada pelos conceitos gestaltistas e fenomenológicos, eu sabia que o homem no mundo é uma gestalt, uma unidade e que o todo não é a soma de suas partes. Essa visão me possibilitou perceber que é através do processo perceptivo que o homem estrutura relacionamentos, e então comecei a criar conceitos e a desenvolver a teoria que fundamenta a psicoterapia gestaltista. Ao longo de 38 anos, desde que escrevi o primeiro livro sobre psicoterapia gestaltista, venho desenvolvendo o conceito de percepção.
Neste novo livro, Linguagem e Psicoterapia Gestaltista, explico o processo da linguagem, a estruturação da língua e da fala, pela percepção. Vemos que falar é expressar a organização do percebido. Linguagem é a maneira do ser humano se expressar, se comunicar, se exteriorizar. Linguagem é o desenho, a imagem, a representação, o resumo, as senhas do que se percebe. Linguagem é descrever, é informar. Fala-se porque se percebe e é percebido. A linguagem é construída pelo relacionamento com o outro e o mundo. Cada língua expressa tempo e espaços característicos. A história da humanidade foi contada graças às línguas estabelecidas. Nossa história, nossas vivências podem ser expressas, compartilhadas através da linguagem.
Portanto, neste novo trabalho, continuando o desenvolvimento de percepção como conhecimento, como "perceber que percebe" - categorização - e entendendo o pensamento como prolongamento perceptivo, deixamos claro que a percepção é estruturadora da linguagem e mantemos assim, o conceito de que vida psicológica é vida perceptiva. Na linguagem isso é enfático.
No desenvolvimento de minha teoria, senti necessidade de explicar a percepção como contexto para a construção e formação da linguagem. A linguagem decorre da percepção, ela não é, como afirmam alguns teóricos, estrurante de realidades.
A fala na psicoterapia é um dos desenhos, das digitais mais individualizantes do ser humano. Fala, que te direi quem és. Ao falar expressamos nossa maneira de perceber o outro, o mundo e a nós próprios. Falando da problemática que nos aflige mostramos nossas vivências, nossas distorções, nossa autorreferência, nossas dúvidas, medos e anseios.
A linguística, o estudo da linguagem, desenvolve-se há mais de um século com seus grandes especialistas. Ferdinand Saussure, criador da linguística, foi quem fez a distinção entre langue e parole - língua e fala - dedicando-se a entender as questões de significado e significante. Chomsky explica a construção de uma gramática única como fundamento do processo linguístico. Louis Hjelmslev e outros fenomenólogos seguiam a linha que enfatiza o que é imanente, o que é transcendente na linguagem. Edward Sapir, antropólogo e linguista influenciado por Franz Boas, pesquisando em culturas indígenas, procurava compreender como se forma a língua. Hegel dizia que a linguagem é a atualidade da cultura; assim fica assinalado o aspecto comunicativo e trancendente da linguagem. Na tradição hinduísta, nos Upanishads, vemos que o sentido da linguagem é possibilitar a distinção de valores e significados. Se não existisse linguagem, não poderíamos conhecer nem o bem, nem o mal, nem o verdadeiro, nem o falso.
Dizer que a boca, a língua, a laringe são órgãos da fala é tão tolo, tão errado quanto dizer que o dedo é o órgão de tocar piano. Algumas estruturas neurológicas quando lesadas ou comprometidas interferem ou mesmo impedem a fala. O processo de formação da linguagem é perceptivo, portanto fundamentalmente psicológico, e como tal, garantido por estruturas neurológicas. Essa isomorfia entre o neurológico e o psicológico assegura os processos perceptivos.
A língua é sempre expressão de uma sociedade, uma cultura, uma época vivenciada por grupos humanos. Cada língua que desaparece evidencia como ela é fruto da relação com o mundo, com o percebido. Novas tecnologias, importação das mesmas, novas vivências e necessidades criam novas palavras. Com a internet muitas línguas e dialetos são insuficientes para expressar as novas relações percebidas.
A língua expressa e comunica vivências, pensamentos, faz com que o outro perceba além do olhar e do tato, e seja também percebido.
Este livro expressa os desdobramentos do conceito de linguagem e de como ela se estrutura. É mais um referencial para perceber as configurações do humano, os desenhos e trajetórias realizadas pelo ser no mundo. Penso a linguagem a partir da percepção.
Fernando Pessoa, pelas mãos de seu "mestre" Alberto Caeiro, o guardador de rebanhos, poeticamente também fala da percepção:
“Sou um guardador de rebanhos.

O rebanho é meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê¬-la e cheirá-¬la
E comer um fruto é saber-¬lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá¬-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.”

Referência:

  • Este artigo é extraído do meu livro Linguagem e Psicoterapia Gestaltista - Como se aprende a falar - Vera Felicidade de Almeida Campos, Editora Ideias & Letras, São Paulo, 2015



sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Incerteza / Caminho para depressão


  1. A indicação do caminho é fundamental para eliminar a incerteza
Incerteza

Caminho para depressão

4 ABRIL 2016, 
VERA FELICIDADE DE ALMEIDA CAMPOS

Ter tudo sob controle é, para muitos indivíduos, a única maneira de garantir a tranquilidade. Este evitar de surpresas, este conhecimento de sequências comportamentais cria tédio, tanto quanto garante estabilidade e segurança. Inseguro quanto ao que conseguiu, sentindo-se sozinho, embora acompanhado de inúmeras pessoas, o indivíduo cria regras, senhas para garantir a manutenção de suas conquistas. A vivência de estar ameaçado é uma constante. Este estado de contínua ansiedade, tira o sono, impede concentração e transforma a vida em uma série de acontecimentos sem unificação, sem organização. Tudo é incerto, nada significa, exceto esta nebulosidade, esta organização fragmentada e polarizada pela contabilização de perdas ou lucros.
Este processo segmenta, divide o indivíduo, desde que ele vive para conseguir, para realizar demandas e assistir a complementação das mesmas. Duplo de si mesmo (na medida em que se fragmenta tornando-se um observador das próprias conquistas e fracassos), o processo de esvaziamento se instala, pois um tem que manter o outro. A divisão em função de aparência e interesses exige imagens mantidas à custa das próprias certezas, agora transformadas em incertezas. É um processo autofágico. Imola-se o ser em função do ter, do parecer e assim se perde contato com o si mesmo, isto é, com a possibilidade de relacionamento enquanto vivência presentificada. Tudo que é vivenciado é por ou para. Os processos relacionais são transformados em configurações indicativas de bons ou maus resultados.
Pendurar-se na finalidade, no resultado é asfixiante, gera atordoamentos diante do que acontece, é a incerteza alimentadora da ansiedade, que desorganiza o dia-a-dia. Utilizam-se vários estratagemas para assegurar-se, para drenar a ansiedade: medos, compulsões, vivências obcecadas como forma de ritualizar o imponderável, como base de alguma organização que gere paz, que gere tranquilidade.
A continuidade do processo de incerteza faz com que, paradoxalmente, o indivíduo se acalme ao saber que morrerá, que tudo findará. Assim, a ansiedade encontra um freio, mas em compensação cria vivência de depressão: a única certeza é o final.
As situações de incerteza geram fantasias e justificativas. Tudo é inventado para tentar criar ordem, organização que situe e possibilite saída. Quando isto é feito, a manutenção impera, consequentemente, o isolamento aumenta. Cada vez mais sozinho, o indivíduo colapsa e seu grande acompanhante passa a ser o remédio que alivia e aplaca.
Vivenciar incerteza exige questionamento. O que mudou? O que foi transformado? O que deixou de existir ou passou a ter outra configuração? Responder estas questões traz novas percepções, novas realidades, que embora não aceitáveis ou confortáveis, possibilitam diálogo e transformação. Sem questionamento, as mudanças são negadas e, assim, cria-se nebulosidade responsável pela vivência de incertezas, labirintos a percorrer, esfringes a decifrar, movimentos a controlar, que ocupam algum tempo, que motivam, mas, depois, tensionam e entediam.
A monotonia do existir - a desvitalização - deprime.



quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Ciúme / Obsessão e fragilidade


O ciúme, a sensação comum tanto na realidade e na ficção

Ciúme

Obsessão e fragilidade

4 MARÇO 2016, 

Ter ciúme é sentir-se perdendo o controle, sendo rejeitado, substituído. Quanto mais insegurança, quanto maior suas não aceitações, seus problemas e dificuldades, maior a necessidade de trunfos e certezas. A fidelidade, a manutenção dos compromissos, faz com que o outro esteja sempre presente, consequentemente, à mão para reafirmar poder e possibilitar segurança. Estas situações são bem explícitas e frequentes nas relações de casal, embora também existam entre pais e filhos e entre amigos.
Focalizando as vivências do ciúme no contexto da carência afetiva, surgem situações espantosas que aparecem sob forma de coisificação ou de antropomorfização. Ter ciúmes de objetos que foram tocados ou mereceram atenção do “ente amado” é estar inserido nas vivências psicopatológicas. Humanizar objetos (antropomorfização): livros, roupas, carros, por exemplo, é imaginá-los como uma continuidade do outro, à medida que são escolhidos e tocados. A antropomorfização é um processo que apaga as barreiras, os limites e diferenciações do real, do existente, para que se consiga ampliar os medos, fantasias, confabulações e silogismos que permitem equacionar as justificativas das vivências ciumentas. Na coisificação, o outro é transformado em objeto, polarizador de atenção, de afeto e, assim, consequentemente, passa a ser odiado. Metonímia realizando funções despersonalizantes.
Ter ciúme é explicitamente lamentar, expor suas dificuldades, suas fantasias e obsessões, reclamando de lhe tirar os controles, os arranjos solucionadores. Exatamente este aspecto caracterizador do ciúme, o contextualiza na vivência de medo e impotência. Sem autonomia, com dificuldades, querendo ajuda, não se pode abrir mão, perder o que se tem. Qualquer ameaça dispara o ciúme, o controle, a reclamação reivindicatória cheia de alegações.
A relação estrutural entre ciúme e não aceitação, problema, dificuldade, enfim, a conhecida baixa auto-estima, é muito visível quando lidamos com comunidades economicamente carentes, onde os clássicos exemplos de domínio e autoridade do homem são mantidos. As mulheres a tudo se submetem, até suportam ser espancadas para manter o direito de proteção e ajuda oferecidos pelo parceiro, seu suporte-espancador. Frágeis, estas mulheres tipificam as vivências de ciúme, tudo fazem para manter e controlar seus parceiros, que mesmo quando as jogam na prostituição para complementar orçamento, não têm ciúme, embora as deixe cada vez mais ciumentas.
Ciúme é impotência, é geralmente o desespero de não mais conseguir interessar, motivar e monopolizar o outro. Perder esta influência, deixa sem direção, no chão, derruba e desanima. O ciúme é também um dos indicativos da vontade de ser o outro, o merecedor das atenções. A situação é antagônica: detesta-se, odeia-se o causador do ciúme, mas é o que se quer como modelo, como parâmetro, como objeto de transformação. Esta divisão é uma duplicidade; cria vítima e agressor simultaneamente vivenciados pelo mesmo indivíduo, daí, as situações de ciúme sempre possibilitarem desejos de vingança, ódio, humilhação e frustração, buscando alívio e ajuda para os males. Medeia, com sua trágica história e Otelo de Shakespeare, com seu drama, nos mostram estes aspectos, esta polaridade agressor (vingativo) e vítima (imolado), simultaneamente vivenciados, que caracterizam o ciúme, seus elementos fantasiosos e trágicos, situações sempre contemporâneas, ocorrências frequentes de reclamações nas sessões psicoterápicas e nos noticiários sobre crimes passionais.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Coordenadas vivenciais / Temporalidade e Espacialidade

Os buracos negros têm suscitado interesse científico sobre o espaço-tempo

Coordenadas vivenciais

Temporalidade e Espacialidade

4 FEVEREIRO 2016, 
VERA FELICIDADE DE ALMEIDA CAMPOS

Tudo que existe ocupa um lugar no espaço, tanto quanto existe em um tempo. Este é um conhecimento básico. Qualquer experiência humana, enfim, qualquer vivência é sempre exercida pelos processos perceptivos que atestam, que permitem a constatação de que tudo que existe ocupa um lugar no espaço e existe em um tempo.
Variações temporais (passado, presente, futuro) e espaciais estabelecem modalidades que propiciam separar posições relacionais, desde as mais simples como: “eu agora me lembro“, “estou aqui”, “está alí”, até o “não sei quando”, “não sei onde”, vivenciando-as como aderências cognitivas e significativas, embaralhando e se perdendo nas próprias vivências do real e imaginado, realizado e desejado, enfim, espacializando o tempo, fazendo com que o mesmo ocupe um lugar no espaço. Esta densificação da temporalidade é uma das distorções mais frequentemente realizadas quando não se aceita a continuidade e sequência de acontecimentos e mudanças. Isto ocorre, por exemplo, quando se desenvolve aversão a um dia da semana, porque foi o dia da morte do pai. O tempo vira espaço e espacializar é transformar em fetiche, em ornamento necessário para expressar medos, dores, lutos e traumas.
Para os filósofos védicos, a questão do tempo e do espaço era fundamentalmente abordada como finito e infinito. Shankaracharya falava que o finito ignora o infinito ou ignora que é também infinito, esta “ignorância” é a causa de todos os sujeitos e objetos (mundo empírico).
Há poucos meses, visitando uma exposição de trabalhos de Louise Bourgeois, li uma de suas frases que dizia: “Espaço não existe, ele é apenas uma metáfora para a estrutura de nossa existência”. Quando li lembrei de Heidegger - temporalidade como morada do ser -, pensei que tanto Shankaracharya, quanto Louise Bourgeois e Heidegger advogam uma metafísica no enfoque das questões de temporalidade e espacialidade, transformando atributos em substantivos ou vice-versa, no desenvolvimento das questões de estrutura, existência, finito e infinito, denso, sutil.
As vivências temporais e espaciais são mais explícitas quando abordamos as percepções de tempo e espaço. Ao focalizarmos o homem, ele é Figura* e o mundo é Fundo (e vice-versa) e ao tentar compreendê-lo temos toda a nossa atitude referenciada no Fundo, no contexto que nos permite esta percepção, nos referenciais de determinação, ocasionando parcialização perceptiva. Diremos, por exemplo, que o homem é fruto de uma sociedade, que é resultante de uma família, que reage a padrões biológicos etc enfim, estes referenciamentos impedem a percepção globalizada do homem. Para que realizemos a globalização é necessário perceber o homem-no-mundo. Homem-no-mundo é uma Gestalt - totalidade -, percebemos uma relação constante e integrativa - homem-no-mundo - que não pode ser dividida. O homem, quando nasce, ocupa um lugar, tem um plano puramente biológico de existência, mas, ao encontrar o outro, é modificado, começa a ser humano graças à nova dimensão, a dimensão do outro. Por exemplo, a mãe não é mais um canal que transmite a informação demandada de alimento, a mãe é uma Gestalt, uma totalidade, um sistema que transmite esta informação. A expressão significativa das formas passa a existir. Não se trata de época, tempo como dado cronológico. Trata-se da transformação de uma relação quantitativa, em uma relação qualitativa. Ganhando condições de ser humano, dado a vivência de estar-no-mundo com outros seres em determinada organização cultural, o homem começa a perceber-se não mais como um organismo, pois seu contexto já não é apenas orgânico, seu contexto é também social, religioso, econômico, moral. O homem está no mundo, é por ele constituído enquanto configuração espacial resultante de padrões culturais, morais, sociais e econômicos, sendo também um constituinte destes mesmos padrões enquanto vivência temporal.
A percepção do tempo, sua vivência, é feita através de referenciais, tal como ocorre em toda percepção de qualquer fenômeno. O referencial para a percepção do tempo é o espaço vital do indivíduo, significado por suas memórias e atitudes. A vivência humana se constitui pela transcendência do espaço, pela saída de posicionamentos para relacionamentos, pois ao nos relacionarmos com o outro, constituimo-nos em temporalidade: passado, presente ou futuro. Participando da relação com o outro que está conosco, constituimo-nos no presente; relacionando-nos com o outro enquanto transmissor de atitudes apriorísticas, presentificamos o passado; relacionando-nos em função de metas, antecipamos o futuro. Assim, conceituo o ser humano como temporalidade enquanto vivência relacional e como espacialidade, no sentido de posicionamento estruturado. O relacionamento com o outro transcende a imanência biológica e confere, ao homem, condições de humanidade, e esta vivência é temporal. Quando nos situamos apenas na faixa do biológico, somos um organismo com necessidades de relacionamento. O ser humano é temporalidade enquanto vivência psicológica. Seu relacionamento com seu situante constituinte, o mundo, o outro, é feito através da percepção, daí, sua vivência psicológica ser toda sua condição de relacionamento.
Tudo depende do outro, contexto que permite transformação: seres em movimento; ou que geram espacialização: seres posicionados.
  • A organização perceptiva obedece a leis (Gestalt Psychology) cujo princípio básico é o de que toda percepção se dá em termos de Figura e Fundo; percebemos o elemento figural e o Fundo nunca é percebido embora seja estruturante da percepção. Existe sempre uma reversibilidade entre Figura e Fundo, o que é Figura transforma-se em Fundo e vice-versa.




segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Vera Felicidade de Almeida Campos / Caráter, força e debilidade

Caráter

Força e debilidade

4 JANEIRO 2016, 
VERA FELICIDADE DE ALMEIDA CAMPOS

Noções de caráter, temperamento, vocação, índole, enfim, situações prévias determinadoras de comportamento e motivação humana são uma constante no pensamento leigo e infelizmente, também no pensamento psicológico. A tentativa de entender os problemas humanos, em geral, baseia-se em idéias de causa, de elementos determinantes da realidade, de anterioridade e substancialidade como fundamentos explicativos dos acontecimentos presentes, gerando tipificações, preconceitos e justificativas.
Perceber e entender o que existe, através de sua evidência, é atitude fenomenológica defendida por Edmund Husserl, mas que foi pouco compreendida e aceita neste universo de causalismo elementarista. Para Husserl, o que existe aparece, se evidencia e isto traz toda a configuração, toda fisionomia que o identifica, individualiza e caracteriza.
Entender caráter como estígma criou teorias preconceituosas, classificações nada científicas, embora adotadas desde muito tempo pela ciência, como é o caso de Cesare Lombroso, que decidia a superioridade e inferioridade de seres e raças pela variação das medidas lobo frontal, lobo occipital e outras medidas do crânio, criando uma classificação responsável por traços de caráter. Seus estudos influenciaram, durante décadas, a criminologia e sistemas jurídicos ocidentais, com a priori, com explicações a respeito de “personalidades criminosas” e “caráter predisposto ao crime”.
A idéia de temperamento também é responsável pela explicação apriorística de comportamentos humanos. Atualmente, o conceito de temperamento é um dos pilares das DSMs (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), manual que é referencia mundial para tipificação e diagnóstico de transtornos psiquiátricos, que nos últimos anos vem recebendo inúmeras críticas e acusações de que suas definições das desordens mentais variam em função dos melhores encaixes mercadológicos para ampliação da venda de medicamentos.
A diferença entre os homens não consiste em seu aspecto físico, racial, tampouco em sua condição social e econômica. A diferença entre os homens consiste na sua humanização e desumanização. Tornar-se cruel, desumano, acontece em qualquer lugar do mundo, em qualquer sistema social e econômico; resulta sempre de transformar possibilidades relacionais em contingências necessárias, onde a sobrevivência se impõe e este processo se verifica tanto na pessoa mais lúmpen (miseráveis, escória social), quanto nas detentoras das maiores riquezas, geralmente fortunas construídas pelo uso e apropriação do outro. Atualmente ainda vemos, em vários quadrantes do planeta, o tráfico de pessoas, indivíduos que aproveitam a fome, o medo, a ignorância, que utilizam seres humanos transformando-os em resíduos, em matéria-prima e meio de ganhar dinheiro, transportando-os em balsas, vendendo seu trabalho, transformando-os em escravos, prostitutas, doadores de órgãos etc. Crueldades como estas não decorrem de “traços de caráter”, de “caráter fraco”, de variações temperamentais ou de aspectos inatos; decorrem sim, da desumanização criada pela ganância focada na sobrevivência e satisfação de necessidades.
A força ou fraqueza humanas não resultam de um dom, de uma característica inata (caráter, temperamento). Elas resultam de como nos relacionamos uns com os outros e com o mundo. Aceitar limites, integrar possibilidades, questionar usos e abusos cria novas perspectivas, estabelece relações configuradoras de ânimo, consistência, aceitação das frustrações e transformação das mesmas.
Ser forte é se aceitar como humano, ser fraco é querer ser reconhecido como humano, é instrumentalizar este reconhecimento, esta marca humana. Viver a contingência, a ferocidade de sistemas enquanto continuidade, sem posicionamentos fragmentadores, impede a construção de bunkers que isolam o indivíduo e dificultam a participação do semelhante, criando espelhos despersonalizadores.
Força é aceitar o impasse, por exemplo; fraqueza é dele fugir, criando justificativas e deslocamentos impeditivos da antítese que transforma, que traz o novo quando os impasses, os limites, as dificuldades são enfrentadas.