sábado, 24 de junho de 2017

Luiz Ruffato / Fernando e Clarice



Fernando e Clarice

Pessoa e Lispector têm um lugar quase inacessível ao comum dos artistas


LUIZ RUFFATO
10 DEZ 2013 - 18:44 COT


Recentemente, estive em Lisboa para participar, a convite da presidenta da Casa Fernando Pessoa, a escritora Inês Pedrosa, do terceiro congresso internacional sobre a vida e a obra do poeta português. Durante três dias, 210 estudiosos de oito países discutiram sobre a produção deste que talvez seja caso único na história da literatura mundial, um artista que, para sentir-se, precisou multiplicar-se: dependendo dos critérios da contagem, listam-se mais de 100 heterônimos usados nos cerca de 25 mil documentos escritos em português, inglês e francês atribuídos a Fernando Pessoa.
Os especialistas se debruçam com lupa sobre cada folha de papel manuscrita em uma caligrafia quase ilegível, buscando encontrar a verdadeira lição de um texto encontrado no mítico baú hoje sob a guarda da Biblioteca Nacional de Portugal, que pode ser um poema, um conto, uma consideração sobre filosofia, política, estética, turismo, economia, ou a montagem do “romance sem ação” Livro do Desassossego, do semi-heterônimo Bernardo Soares. Os debates chegam a ficar tão acalorados que não são incomuns os bate-bocas entre congressistas – afinal, antes de peritos, são homens e mulheres movidos pela paixão que Pessoa desperta.
Fernando Pessoa é um desses raríssimos fenômenos de autor que, embora sequestrado pelo discurso acadêmico, conversa de maneira direta com o leitor comum – e quando me refiro ao leitor comum, estou evocando aquele que não se guia por indicações ou sugestões de conhecedores, mas por seu próprio gosto pessoal. São milhares de exemplares vendidos todos os anos, em diversas línguas, principalmente de antologias de poemas assinados por ele mesmo e por seus mais conhecidos heterônimos Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis. Números que vêm aumentando de forma exponencial desde 2006, quando os direitos de sua obra caíram em domínio público e editoras passaram a oferecer publicações de cunho popular, seja pelo preço, seja pela acessibilidade (textos sem variantes, explicações ou contextualizações, por exemplo).

As páginas na Internet dedicadas a divulgar a obra de Fernando Pessoa somam-se aos milhares. Suas palavras, na íntegra ou em retalhos, são usadas para sublinhar estados de ânimo, conquistar amores, desfazer relações, consolar, convencer... Todo mundo recorre, em algum momento da vida, às reflexões contidas nessa espécie de vade-mécum moderno. Para arrepio de muitos pessoanos, Fernando Pessoa tornou-se uma pitonisa e seus livros oráculos...
Só conheço um caso parecido na literatura de língua portuguesa, a de autor considerado, sem restrições, como alta literatura pelo mundo acadêmico, e abraçado e amado pelo leitor comum: Clarice Lispector. Em maio deste ano, participei da 39ª Feira Internacional do Livro de Buenos Aires, e, no encerramento do evento, convidaram-me para compor uma mesa em homenagem à escritora brasileira. Um público entusiasmado lotava o anfiteatro: as poltronas não foram suficientes e havia pessoas de pé e sentadas pelos degraus.
Notícias chegam de várias partes do mundo. Na Feira de Frankfurt deste ano, na qual o Brasil foi o país homenageado, brilhava o rosto magnífico de Clarice. No verão novaiorquino, Clarice. Na França, onde é publicada desde a década de 1950, reina absoluta Clarice. No Brasil, o interesse por Clarice Lispector ultrapassa os limites do literário. Além de sua bibliografia clássica, composta por romances, contos e crônicas, e de biografias e ensaios críticos que esmiúçam sua trajetória pessoal e profissional, os leitores contam com um amplo cardápio que busca abarcar os mais diversos interesses da autora. Os pesquisadores encontraram, não em um baú como o de Fernando Pessoa, mas em jornais e revistas, material suficiente para inundar o mercado com compilações, correspondência, aconselhamentos, entrevistas, traduções, pinturas... Além disso, milhares de páginas na Internet reproduzem frases, pensamentos e citações de Clarice, incorporada ao gosto popular como autoridade em questões do cotidiano, particularmente no que tange ao universo feminino.
Fernando Pessoa e Clarice Lispector alcançaram um lugar quase inacessível ao comum dos artistas: estabelecer diálogos distintos com estudiosos e leitores comuns, e ser venerados por ambos...


sexta-feira, 23 de junho de 2017

Luiz Ruffato / Meus romances brasileiros preferidos



Meus romances brasileiros preferidos

Outra lista, desta vez contemplando apenas autores nacionais, limitada a autores que já se foram e livros publicados até 1977


LUIZ RUFFATO
9 DEZ 2014 - 06:31 COT


Alguns leitores que consultaram a lista dos meus romances preferidos, publicada na edição passada, solicitaram outra, desta vez contemplando apenas autores nacionais. Aceitei arrolar minhas predileções, mas, neste caso, tenho que explicar e justificar algumas opções. A primeira delas: limitei-me a autores mortos, com a raríssima exceção de Raduan Nassar, que deixou de escrever ainda nos anos de 1970. Portanto, circunscrevi meu universo de escolhas até àquela década – o título mais recente é “A hora da estrela”, de Clarice Lispector, publicado em 1977. Outra observação importante: achei melhor citar apenas uma obra de cada autor, mas alguns deles poderiam, com certeza, estar aqui presentes com mais de um trabalho (casos de Machado de Assis e Graciliano Ramos, por exemplo). Finalmente, repito: trata-se de uma lista inútil, por subjetiva e aleatória, mas que talvez, como a outra, desperte curiosidade a respeito de um autor ou de um título. Eis tudo, que é nada...

Os 20 melhores romances, por ordem alfabética:
A chuva imóvel (1963), de Campos de Carvalho (Uberaba, MG – 1916-1998) – O absurdo e o lirismo marcam esse questionamento amargo sobre a morte. Sem possuir uma trama ou um claro fio condutor, o narrador nos conduz pelos terrenos úmidos e traiçoeiros da memória, neste que talvez seja, de seus quatro livros, o único em está ausente o humor. (José Olympio)
A hora da estrela (1977), de Clarice Lispector (Ucrânia – 1920-1977) – Sofisticada narrativa que mistura uma aguda consciência dos problemas sociais com uma elaborada discussão sobre o papel do intelectual em um país do Terceiro Mundo. Rodrigo, o escritor, discute seu processo de escrita, enquanto compõe a história da datilógrafa nordestina Macabéa. (Rocco)
A menina morta (1954), de Cornélio Penna (Petrópolis, RJ – 1896-1958) – O autor registra um dos mais poderosos retratos da escravidão no Brasil por meio do impacto provocado pela morte da filha de um barão do café fluminense nos habitantes da fazenda. Narrativa sombria, é um alentado estudo sobre os recônditos da alma humana. Infelizmente, fora de catálogo.
A Viúva Simões (1897) - Júlia Lopes de Almeida (Rio de Janeiro, RJ – 1862-1934) – A autora, injustamente desprezada pela crítica, urde neste livro uma corajosa e ousada trama em que mãe e filha disputam o amor pelo mesmo homem. Antirromântica, desenha uma mulher que, rompendo com padrões sociais, coloca em xeque valores de todos os tempos. (Mulheres – esgotado)
Crônica da casa assassinada (1959), de Lúcio Cardoso (Curvelo, MG – 1912-1968) – Romance sobre a decadência social e moral de uma tradicional família mineira, usa de uma complexa estrutura narrativa para falar de incesto, adultério, homossexualismo, loucura. A atmosfera de pesadelo nasce de um olhar intermediado pela poesia. (Civilização Brasileira)
Fogo morto (1943), de José Lins do Rego (Pilar, PB – 1901-1957) – Último volume do chamado “ciclo da cana-de-açúcar” mostra, com a decadência do Engenho Santa Fé, não só o fim de uma era econômica, mas principalmente a transformação de um mundo, cujos valores baseiam-se na violência, física e psicológica, na ignorância e na corrupção. (José Olympio)
Grande Sertão: veredas (1956), de Guimarães Rosa (Cordisburgo, MG – 1908-1967) – Riobaldo Tatarana desfia sua história num jorro compacto, servindo-se de uma linguagem arrebatadora. Seu companheirismo com Diadorim na jagunçagem pelos sertões de Minas Gerais encobre segredos e dúvidas, a respeito do visto e do indizível. (Nova Fronteira)
Lavoura arcaica (1975), de Raduan Nassar (Pindorama, SP – 1935) – Autópsia de uma família cujos valores, baseados na culpa e na punição, engendram a intolerância e a frustração. Narrado de forma não linear, conta a história da fuga de André da sombra castradora do pai, e sua volta para casa, o que acabará gerando uma tragédia. (Companhia das Letras)
Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis (Rio de Janeiro, RJ – 1839-1908) – Dedicado “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver”, marca a entrada de Machado de Assis no rol dos maiores autores da literatura universal. Cínico e sarcástico, fala ao Brasil de todos os tempos. Há inúmeras edições, das excelentes às péssimas.
Memórias de um sargento de milícias (1854), de Manuel Antônio de Almeida (Rio de Janeiro, RJ – 1831-1861) – Narrativa que beira o picaresco em uma época de domínio das histórias românticas, tem como protagonista um sujeito que tudo faz para se dar bem na vida. Espécie de ilustração do homem comum brasileiro. Há inúmeras edições, das excelentes às péssimas.
Memórias sentimentais de João Miramar (1924), de Oswald de Andrade (São Paulo, SP – 1890-1954) – Escrito em fragmentos e em estilos os mais diversos, usa do sarcasmo para expor a vida do protagonista, João Miramar. Ao fim e ao cabo, trata-se da visão de mundo da elite brasileira, com seu autismo social e absoluto desprezo pelo país. (Globo – esgotado)
O Ateneu (1888), de Raul Pompéia (Angra dos Reis, RJ – 1863-1895) – “Romance de formação”, acompanha as agruras de um sensível garoto de 11 anos no universo de um colégio que prima pela disciplina. Microcosmo da sociedade do fim do século XIX, expõe a violência e a crueldade por trás da fachada da moralidade. Há inúmeras edições, das excelentes às péssimas.
O cortiço (1890), de Aluísio Azevedo (São Luís, MA – 1857-1913) – Romance coletivo, expõe, de maneira brilhante, o processo de formação social do Brasil, por meio de histórias paralelas. O aristocrata decadente, o burguês ignorante em ascensão, a miséria atávica a que está agrilhoada a população pobre. Há inúmeras edições, das excelentes às péssimas.
O risco do bordado (1970), de Autran Dourado (Patos de Minas, MG – 1926-2012) – Memorial afetivo, acompanha a visita João Fonseca Ribeiro, alter ego do autor, à mítica cidade do interior de Minas Gerais, Duas Pontes. Pelas ruas ele esbarra, todo o tempo, com lembranças que reavivam o passado, contaminam o presente e determinam o futuro. (Rocco)
O tempo e o vento (1942, 1951, 1962), de Érico Veríssimo (Cruz Alta, RS – 1905-1975) – Composta por sete tomos, o leitor acompanha mais de um século e meio de história do Brasil – centrada na formação do Rio Grande do Sul, pouco a pouco se espraia para o resto do país. Um dos painéis mais completos sobre a mentalidade política nacional. (Companhia das Letras)
Os ratos (1935), de Dyonélio Machado (Quaraí, RS – 1895-1985) – Naziazeno tem uma dívida com o leiteiro. Para saldá-la, percorre por um dia inteiro as ruas de Porto Alegre em busca de alguém que possa lhe emprestar dinheiro. Narrativa do desamparo, possui tal maestria que o real a todo momento parece se dissipar numa quase irrealidade. (Planeta)
Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909), de Lima Barreto (Rio de Janeiro, RJ – 1881-1922) – Culto e refinado, o protagonista não consegue se inserir na sociedade porque é negro. Narrativa sobre o preconceito racial, descreve uma realidade, do começo do século XX, que pouco difere da dos dias atuais. Há inúmeras edições, das excelentes às péssimas.
Sargento Getúlio (1971), de João Ubaldo Ribeiro (Itaparica, BA – 1941-2014) – O protagonista é encarregado de levar um preso político até Aracaju. No trajeto, há uma reviravolta política e o coronel de quem o Sargento Getúlio é homem de confiança, emite uma contraordem, que ele não irá acatar, mergulhando-os em um mar de violência absurda. (Alfaguara)
São Bernardo (1934), de Graciliano Ramos (Palmeira dos Índios, AL – 1892-1953) – Paulo Honório expõe suas lembranças, de trabalhador de eito a grande fazendeiro, para tentar compreender seu fim, solitário e amargo. Ambicioso, cruel, inescrupuloso, avaro financeira e afetivamente, quanto mais acumula posses, mais intolerante se transforma. (Record)
Senhora (1875), de José de Alencar (Messejana, CE – 1829-1877) – Moça pobre, Aurélia recebe de herança uma grande fortuna e resolve se vingar das humilhações sofridas. Para isso, compra um marido, financeiramente falido. Retrato perfeito da substituição dos valores da aristocracia decadente pelos da burguesia ascendente. Há inúmeras edições, das excelentes às péssimas.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Luiz Ruffato / Meus romances preferidos



Meus romances preferidos

Existem dois tipos de listas: as necessárias e as inúteis, sendo que em muitos casos, dialeticamente, as necessárias tornam-se inúteis e as inúteis, necessárias



LUIZ RUFFATO
2 DEZ 2014 - 17:29 COT



Não sei quando começou a necessidade de fazer listas, mas posso imaginar nosso antepassado mais remoto riscando na parede da caverna, à lua de uma tocha, signos que indicavam quanto de alimento havia sido estocado para o inverno que se aproximava ou, como somos competitivos, a relação entre nomes de integrantes da tribo e o número de caças abatidas por cada um deles.
Se formos propor uma hermenêutica acerca do tema, talvez possamos afirmar que existem dois tipos de listas: as necessárias e as inúteis, sendo que em muitos casos, dialeticamente, as necessárias tornam-se inúteis e as inúteis, necessárias. Tomemos dois exemplos. Todo mês, enumero as coisas que faltam na despensa de minha casa antes de me dirigir ao supermercado: essa lista arrolo na categoria das necessárias. Por outro lado, há pessoas que anotam suas metas para o ano que se inicia, começar a fazer ginástica, parar de fumar, cortar em definitivo o açúcar, ser mais solidário, menos intolerante: essa, elenco na categoria das inúteis...
Liev Tolstói


Feitas as compras, a lista do supermercado, necessária, torna-se então inútil. A lista contendo nossos desejos de sermos melhores para nós mesmos e para os outros, embora inútil, pois dificilmente as cumprimos, convertem-se em necessárias, porque estabelecem um vínculo com o futuro, e projetarmo-nos é uma forma de vencer a morte.
Tudo isso, para justificar o que se segue. Ninguém me perguntou, mas resolvi organizar uma lista dos melhores romances que li em minha vida – escolhi o número vinte, não por motivos místicos, mas porque talvez, pela amplitude, alinhave, mais que preferências intelectuais, uma história afetiva das minhas leituras. Enquadro-a na categoria das listas inúteis, mas quem sabe, se consultada, municie discussões, já que toda escolha é subjetiva e aleatória, ou, na melhor das hipóteses, suscite curiosidade a respeito de um título ou de um autor. Ocorresse isso, me daria por satisfeito.
Os 20 melhores romances, por ordem alfabética:
Anna Kariênina, de Liev Tolstói (1828-1910) – Publicado em 1877, traça um painel da sociedade russa do século XIX. Tem a melhor frase de abertura de uma narrativa de ficção, verdadeira aula de teoria literária: “Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira”. A edição da Cosac Naify conta com excelente tradução de Rubens Figueiredo.
Berlin Alexanderplatz, de Alfred Döblin (1878-1957) – Lançado em 1929, acompanha a trajetória do desajustado Franz Biberkopf pelas ruas de uma Berlim caótica do período entreguerras,. A vertigem de um mundo em colapso expressa-se de maneira magnífica numa narrativa que se quer, ao mesmo tempo, objetiva e subjetiva. Editado pela Martins, com tradução de Irene Aron.
Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez (1927-2014) – Em 1967, o povoado de Macondo, situado num país qualquer da América Hispânica, torna-se universal. Ali, se desenvolve a saga dos Buendía, um ciclo interminável de histórias cujos protagonistas vivem no tênue limite entre real e fantástico. Publicado pela Record, com tradução de Eric Nepomuceno.
Miguel de Cervantes

Dom Quixote, de Miguel de Cervantes (1547-1616) – Composto por dois tomos, o primeiro lançado em 1605 e o segundo dez anos depois, trata-se da obra mais completa da história da literatura universal. Paródia dos romances de cavalaria, ilustra à perfeição o eterno embate entre racionalismo e idealismo. Há várias traduções, mas recomendo a de Sergio Molina, pela Editora 34.
Enquanto agonizo, de William Faulkner (1897-1962) – Embora não seja a mais conhecida das obras do autor, este romance, publicado em 1930, lança luz sobre os Bundren, família pobre do sul dos Estados Unidos, que busca cumprir o último desejo da matriarca. Disponível apenas numa edição de bolso da L&PM, com tradução de Wladyr Dupont.
Ilusões Perdidas, de Honoré de Balzac (1799-1850) – Lucien de Rubempré é um dos mais fascinantes personagens da literatura. Intelectual provinciano, busca firmar-se em Paris no início do século XIX. Egoísta e arrogante, mas também ingênuo, vê seus sonhos ruírem, após descartado pela mesma sociedade que o adotara. Publicado em 1837, possui seis diferentes traduções disponíveis.
Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (1839-1908) – Dedicado “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver”, este romance, de 1881, marca a entrada de Machado de Assis no rol dos maiores autores da literatura universal. Cínico e sarcástico, Brás Cubas fala ao Brasil de todos os tempos. Há inúmeras edições disponíveis, das excelentes às péssimas.

Moby Dick, de Herman Melville (1819-1891) – Publicado em 1851, este verdadeiro compêndio de possibilidades narrativas possui uma dimensão épica que nos remete à própria criação do mundo – o tema ultrapassa, em muito, a perseguição da grande baleia branca pelo capitão Ahab. A melhor edição é da Cosac Naify, com tradução de Alexandre Barbosa da Silva e Irene Hirsch.
No coração das trevas, de Joseph Conrad (1857-1924) – Neste libelo anticolonialista, lançado em 1902, acompanhamos o narrador Charles Marlow penetrando no âmago da África Central em busca de um enigmático personagem chamado Kurtz. O que ele encontra é apenas o horror. Há algumas edições disponíveis: recomendo a tradução de José Roberto O’Shea, pela Hedra.

O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald (1896-1940) – Romance da era do jazz, publicado em 1925, mostra os bastidores da vida luxuosa da classe média endinheirada da Costa Leste dos Estados Unidos. Por trás da futilidade e da loucura, a solidão e o vazio que prenunciam a tragédia. Há pelo menos sete diferentes versões disponíveis no mercado.
O leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1957) – Somente publicado dois anos após a morte do autor, este é o depoimento do fim de uma época, a da decadente aristocracia refinada e parasita. Tem uma das frases mais emblemáticas do exercício da política: “Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude”. Fora de catálogo, disponível apenas em sebos.
O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë (1818-1848) – O amor entre a complicada Cathy Earnshaw e o rancoroso Heathcliff ultrapassa as convenções sociais, o tempo e até mesmo a morte. Publicado em 1847, é a narrativa da paixão cega e da vingança a qualquer preço, desenvolvida nos grotões de uma Inglaterra selvagem. Disponível em pelo menos sete versões diferentes.
O mundo se despedaça, de Chinua Achebe (1930-2013) – A chegada do homem branco a uma remota área habitada pela etnia ibo, às margens do rio Níger, desestabiliza a sociedade local, de religião anímica e regras próprias. A introdução do cristianismo desintegra rapidamente algo que durava desde tempos imemoriais. A edição original é de 1958. Fora de catálogo.

O processo, de Franz Kafka (1883-1924) – Romance antecipatório da aniquilação da subjetividade, que caracterizaria o século XX. A força de sua ficção engendrou até mesmo um adjetivo, kafkiano, para designar situações absurdas. Publicação póstuma, de 1925, conta com duas boas traduções, de Modesto Carone e Marcelo Backes, pela Cia das Letras e L&PM.
O vermelho e o negro, de Stendhal (1783-1842) – Egoísta e ambicioso, Julien Sorel usa, sem escrúpulos, seu charme e simpatia para galgar um lugar na exclusivista sociedade francesa pós-napoleônica, com resultados trágicos. Lançado em 1830, é um monumento do realismo psicológico. Recomendo a edição da Cosac Naify, traduzida por Raquel Prado.
Oblómov, de Ivan Goncharóv (1812-1891) – Publicado em 1859, é um retrato da derrocada da sociedade russa. O aristocrata Iliá Ilitch Oblómov, incapaz de tomar qualquer atitude prática na vida, até mesmo de se levantar da cama, assiste seu mundo sucumbir à inércia e à indiferença. Publicado pela Cosac Naify, com tradução de Rubens Figueiredo.
Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski (1821-1881) – Lançado em 1879, narra a complexa relação do avaro Fiódor Karamázov com seus três filhos: Dmitri, o primogênito, e seus meio-irmãos, o intelectualizado Ivan e o místico Aleksiei. Esse romance antecipa vários temas que seriam depois discutidos pela psicanálise. Recomendo a tradução de Paulo Bezerra, pela Editora 34.

Pedro Páramo, de Juan Rulfo (1917-1986) – “Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um certo Pedro Páramo”. Comala e Pedro Páramo, aos poucos, se fundem nesta narrativa a um só tempo realista e fantástica, construída em fragmentos aparentemente desconexos. Lançado em 1955, é editado no Brasil pela Record, com tradução de Eric Nepomuceno.
Viagem sentimental pela França e Itália, de Laurence Sterne (1713-1768) – Publicado em 1768, é uma narrativa satírica que coloca em xeque a própria forma do romance. Inicia-se abruptamente e termina com uma vírgula, sem sequer alcançar a Itália, objetivo aparente do personagem, se levarmos a sério o título. Tem uma edição pela Hedra, com tradução de Luana Ferreira de Freitas.
Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift (1667-1745) – Numa época em que pululavam livros de naturalistas que descreviam terras desconhecidas, o autor imagina seu personagem, Lemuel Gulliver, visitando lugares improváveis, criando, assim, uma poderosa sátira sobre a sociedade europeia. Recomendo a edição da Cia das Letras, com excelente tradução de Paulo Henriques Britto.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

João Paulo Teixeira / Hemingway com Ava Gardner



Hemingway com Ava Gardner


Por João Paulo Teixeira
EM 23/07/2012 ÀS 11:20 PM

Burt Lacaster / Ava Gardner
The Killers
1946
Ernest Hemingway é o escritor americano que melhor conceitualizou a “geração perdida” definida por Gertrude Stein. Isto porque, Hemingway descreve com extrema precisão homens que saíram das guerras e conflitos bélicos do século 20 para se embrenharem nas trevas do padecimento físico e psicológico. 
Para celebrar um tratado minúsculo em tamanho, mas grande em abrangência literária, o bom diretor Robert Siodmak fez “The Killers”, em 1946,  um filme fantástico ao estilo “noir”. Os primeiros dez minutos reproduzem quase literalmente o conto homônimo de Hemingway, escrito em 1927. 
Dois assassinos invadem uma vila adormecida no interior dos Estados Unidos para matar o recluso imigrante sueco Swede (Burt Lancaster). Estranhamente, no conto e no filme, o protagonista não esboça resistência e abraça sua morte sem pestanejar. 
O espectador fica na iminência cruel de imaginar a razão, pouco natural, para que Swede abandone o desejo de viver. Ao ser anunciado que, em poucos minutos, receberia oito tiros de revólver, ele apenas responde ao colega que trabalha com ele como frentista: “Não vou fugir. Estou cansado de me esconder”. 
Depois que o filme deixa o roteiro “escrito” por Hemingway, aparece a imaginação fértil dos roteiristas Anthony Veiller e John Huston, o mesmo que fez e dirigiu “O Falcão Maltês”. 
Os dois inventam a personagem Riordan (vivido pelo ator Edmon O’ Brien), um dedicado investigador de uma companhia de seguros, que para descobrir uma apólice avantajada — avaliada na época em 2500 dólares —  vai atrás do passado da vítima. (Frise-se que, durante o filme, um personagem enche o tanque de um Cadillac modelo seis cilindros com apenas oito dólares. Ou seja, 2500, à época, representava uma quantia considerável). 
Na sequência do roteiro, parece que Veiller e Huston leram e filmaram, ao seu modo, “O Sol Também se Levanta”, primeiro romance de Hemingway. Ele retrata a história de um pugilista que se envolve com uma mulher de reputação duvidosa. No livro, é uma enfermeira que tem a aparência que o leitor o desejar. Já no filme, a beleza fica por conta da belíssima Ava Gardner. 
É possível que Hemingway — que teve a maioria de suas obras traduzidas no Brasil pelo escritor goiano José J. Veiga — tenha gostado, e muito, de ver Ava Gardner inserida em um dos seus textos mais notáveis. 
Há informações prefaciais apontando como biográfico o romance pioneiro do escritor norte americano em visita à Espanha. Nele, o jornalista Jake Barnes é emasculado por um ferimento de guerra e nutre um amor platônico por uma enfermeira que o rejeita no leito de morte.  
Hemingway acostumou-se à vida de viagens e usou parte de suas aventuras como pano de fundo para histórias na África, na Europa e em Cuba. Seu livro mais célebre, que o levou ao Nobel de Literatura em 1954, mostra figurativamente o encantamento do escritor com o regime socialista implantado na ilha caribenha. O desfecho totalitário do modelo econômico e social, aliado a terrível depressão de Hemingway, resultou — anos depois — no suicídio do escritor com um balaço disparado na própria face por uma espingarda usada comumente para caçar elefantes. 
No filme de Siodmak, há poucas tragédias, mais possui um talento igual aos livros de Hemingway. No que se refere aos flashbacks, “Os Assassinos” está um passo além de “Cidadão Kane”, considerado pelo respeitável “American Film Institute” como o melhor filme estadunidense de todos os tempos. 
Enquanto “Cidadão Kane” se centra no roteiro não linear, na passagem meticulosa do tempo, nos planos detalhes inventados por D.W Griffith e no “Macguffin” verbal de “Rosebud”, a obra prima de Siodmak prende o espectador ao entregá-lo, a cada cinco minutos, uma peça de um intrincado quebra-cabeça que só é montado no final da trama. 
O roteiro, bem montado por Anthony Veiller, aliado à fotografia de Elwood Brendell e a música instrumental e retumbante do húngaro Miklos Rozsa, reforça a ligação do incansável agente de seguros — não como personagem, mas como espectador privilegiado da história de Swede. 
Para cristalizar o elemento fílmico na narração da história de Hemingway, é possível ver o investigador sentar-se em uma fila de cinema, poucos minutos antes do embate final. A câmera se posiciona em primeiro plano e, como se fossem os olhos da personagem principal, enxergam a biografia mambembe de Swede. 
Mais de três décadas depois, outro gênio do cinema americano, Stanley Kubrick, usou o mesmo fenômeno de Siodmak em seu épico “Barry Lyndon”, de 1975. Na trama de Kubrick, o personagem central Redmond Barry é mostrado, concomitantemente, como vivente e plateia à sua própria escalada rumo a aristocracia austríaca. 
Em um dos momentos que Barry se envolve em uma luta corporal em meio à guerra franco-prussiana, Kubrick também posiciona a câmera à altura dos olhos do ator Ryan O’Neal. Cada soco ou tiro de canhão é direcionado não a Barry, mas à plateia.   
O fenômeno causa tanta empatia que é praticamente impossível abandonar os filmes — tanto o de Siodmak quanto o de Kubrick — pela metade, mesmo depois de assisti-los pela enésima vez. 
Além da boa qualidade técnica, “Os Assassinos” é a consagração do gênero “noir”.  É a clara — e pioneira — materialização das razões que tornaram o modelo popular e como, anos depois, o gênero foi ramificado em dezenas de temáticas até desembocar nos populares filmes de ação da década de 1990. 
O gênero “noir”, em sua essência, é a prova que queremos a ação sem nos desprender da segurança. É um filme fantástico em todos os aspectos.