terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Liberdade, sua exeqüibilidade / Prisões contemporâneas



Liberdade, sua exeqüibilidade

Prisões contemporâneas

4 SETEMBRO 2015, 
VERA FELICIDADE DE ALMEIDA CAMPOS


Ser livre é um anseio secular.
A vida em sociedade, desde sempre, organiza-se gerando os submetidos, os escravos e os livres. Na Pólis grega, por exemplo, havia forte distinção entre escravos e homens livres. Platão considerava isto uma realidade inevitável à partir da qual tudo seria estabelecido. Os homens eram escravos ou senhores por nascimento e esta era uma associação ou organização não advinda de convenções e acordos; tratava-se de características humanas. Da antiguidade aos dias atuais, a mão-de-obra escrava tem sido um dos pilares que sustenta sociedades e seus sistemas econômicos, embora, na contemporaneidade, ambiguidades dispersem e camuflem sua visibilidade.
A vida contemporânea não se assemelha à vida na antiguidade, ao contrário, se afirma como uma evolução em relação a esta, onde o progresso se define positivamente não só como conquistas tecnológicas, mas também como conquistas sociais em prol dos direitos e liberdades individuais (base de reivindicações de inúmeras minorias). Entretanto, nunca vivemos tão aprisionados à produção, à velocidade, ao encaixe padronizado, ao ajuste/desajuste, à burocratização e às dificuldades de relacionamento, como agora, consequentemente, as escravidões se mantém e por isso nunca percebemos, tão ambiguamente, o que é ser livre!
Costumamos pensar por paradoxo e antinomia e neste sentido, a liberdade é percebida como oposta à escravidão ou no mínimo, como o que a exclui. Deste modo, o conceito de liberdade se anula através de uma construção oposta: o que é necessário (a escravidão é necessária, por exemplo) e o que é impeditivo (o necessário impede a liberdade). Ser escravo é não ser livre, ser livre é não ser escravo, esta tautologia pouco esclarece e em nada amplia o entendimento da liberdade, que, como tudo, é relacional e só pode ser apreendida à medida que seus estruturantes tornem-se nítidos.
A questão da liberdade, do ponto de vista existencial, nos remete à definição do humano: a essencia humana é possibilidade de relacionamento. O homem é um ser no mundo com os outros e ser livre é exercer possibilidades de relacionamento. Quando se vive para satisfazer necessidades, para suprir desejos e metas, se estabelece apegos, compromissos, carências, medos, enfim, sistematizações aprisionantes e limitadoras. Para se ajustar, busca-se proteção e segurança em soluções criadoras de relações afetivas baseadas em compromisso, ilusão de empregos solucionadores, oportunismos, dogmas, regras e esquemas.
Ser livre é ultrapassar limites, é não ser por eles definidos. Estas alternativas, liberdade e limite, não se colocam como polaridades em função das quais a questão da liberdade ou não liberdade, se desenrola. Não se trata de continuidade entre dois polos de um mesmo eixo, senão seria simplesmente ser livre como oposição a ser escravo, a ser preso, a ser contido e neste sentido a questão seria de acréscimo ou decréscimo, de aposição ou oposição.
Liberdade é transcender limites, é transcender obstáculos e esta transcendência não acontece na continuidade dos processos. A ruptura se impõe, ou seja, transcender é ir além, é fazer surgir outro processo. A linearidade das situações estabelecidas é sempre binária, lógica, previsível, enquanto o que transforma, o que quebra e modifica é a apreensão da unidade nela contida (a relação configurativa entre os polos de um mesmo eixo), ou seja, é o espiralado, é a sincronização que atinge outros planos, outros referenciais. Neste sentido, toda a filosofia religiosa, desde Sto. Agostinho e São Tomás, fala nas coisas que não são deste mundo, fala da liberdade em Deus, na fé, por exemplo - é a metafísica.
Sempre podemos transcender limites, sempre podemos ser livres: o amor, o pensamento, a criatividade, as mudanças sociais, os novos paradigmas que constituem a ciência e tecnologia, ampliam espaços, neutralizam temporalidade, mas só conseguem quebrar as polaridades estabelecidas pelo sistema, pelo outro e por nós mesmos, quando não nos estrutura no passado ou nos apoia no futuro. A insistência e pressão social em nos estimular em direção ao acúmulo, à construção de imagens, à fixação de metas sociais e econômicas, impede a vivência do presente, fragiliza, gera ansiedade, depressão, medos, compromissos, ou seja, dificulta o livre exercer da dinâmica de ser com o outro. Viver o presente, sem os referenciais de medo, apego e expectativa, é a única maneira de ser livre. Quanto mais nos estabelecemos em sistemas e referenciais solucionadores ou problematizadores, menos liberdade, mais sobrevivência, mais ansiedade, angustia e adequação/inadequação.
Liberdade é ultrapassar limites integrando-os, é viver o presente sem as proteções e interrupções dos desejos, medos e compromissos. Ser livre é ser inteiro. Esta unidade vivencial só é conseguida através da autonomia, através da aceitação das próprias limitações e dificuldades.
Ser livre é a humanização que acontece cada vez que se consegue dizer não à alienação e cooptação.








RIMBAUD




segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Recursos humanos infinitos / Vidas realizadas, vidas destroçadas


Atravessar o deserto em um barco

Recursos humanos infinitos

Vidas realizadas, vidas destroçadas

4 AGOSTO 2015, 
VERA FELICIDADE DE ALMEIDA CAMPOS


Todo ser humano tem recursos, isto é, qualidades específicas que permitem estabelecer realização de possibilidades e satisfação de necessidades. Neste sentido, os recursos são infinitos e passam a ser sinonimizados com possibilidades. Acontece que tudo que existe evidencia-se em contextos - em situações estruturantes de limites e condições -, consequentemente gerando obstáculos, tanto quanto liberações.
Quando o ser humano constata suas possibilidades, ele descobre recursos. Caso este processo, esta percepção, seja realizada no contexto de autonomia, que mesmo na infância pode existir, os recursos são fontes possibilitadoras de relacionamentos e de infinitas mudanças, de satisfações e descobertas.
Quando a identificação dos recursos é realizada no contexto da não autonomia, eles são meios de conseguir que o outro realize os próprios desejos e deste modo o recurso se caracteriza pela capacidade de usar, de criar condições - do engano à sedução - para que o outro realize o que se necessita.
O contínuo exercício desta atitude cria dependências afetivas, despersonaliza e transforma pessoas em objetos de prazer, de trabalho, de amor, de incentivo. Quanto mais se realiza desejos, mais se esvazia. Este sistema de drenagem estrutura os deprimidos, os viciados, os desumanizados. Transformar os próprios recursos, as próprias possibilidades relacionais, em normas e padrões determinantes de realização de desejos e objetivos só é possível quando se deixa de perceber o outro como um ser humano, quando se começa a percebê-lo como objeto, como receptáculo de desejos, como apoio para consecução de objetivos.
Transformado na expectativa do que deseja ou espera, o indivíduo consegue alienar recursos, viver em função do investimento dos mesmos. A atitude não autônoma, resultante de autorreferenciamento, aumenta cada vez mais a falta de autonomia, a falta de vontade, a falta de motivação e determinação. Deste modo, os recursos são transformados em busca de oportunidades que, para acontecer, precisam de ajuda, de suporte. Esta circunstancialização referencia tudo em termos de sorte ou de azar. Assim o indivíduo perde individualidade, perde possibilidades humanas, tanto quanto aumenta a ansiedade para realização do desejado, do prometido e esperado. Ansiedade, medo, dúvida, angustia passam a ser seus constantes e únicos recursos. Neste quadro, para não estourar, utiliza drenos representados por remédios, ajudas comunitárias, crenças protetoras e salvadoras: deuses, gurus e até políticos.
Todo ser humano é cheio de recursos, entretanto, quando esvaziado pelo autorreferenciamento, pela não autonomia criadora de metas (desejos relacionados a situações totalmente diferentes e alheias às que vivencia, mas que considera salvadoras: desde ganhar na loteria, encontrar príncipes ou princesas encantados/as, até ser ungido como poderoso que tudo consegue), ele se fragmenta, se divide, perdendo a continuidade do estar no mundo, vivenciando o presente como escuridão e parede que gera angustia e medo. Nesta situação de esvaziamento, alienação e despersonalização, seus recursos são estes: sonhos não realizados, possibilidades e potencialidades perdidas, traumas e arrependimentos criadores de medo, desconfiança e temor, consequentemente, relacionamentos frustrados, falas amargas, dúvidas nunca esclarecidas.
As possibilidades, os recursos transformados em necessidades criam entraves, dificuldades. Terra chacinada, vida destruída, humanidade superada e sufocada pelo uso, consumo e abuso do outro e de si mesmo. Ao utilizar os próprios recursos como maneira de alimentar o autorreferenciamento, se realiza autofagia; é como se nutrir do próprio organismo para continuar vivo.


domingo, 14 de janeiro de 2018

Origem, começo e causalidade / Determinantes e resultantes


Um pequeno planeta cheio de vida
Origem, começo e causalidade

Determinantes e resultantes

4 JULHO 2015, 
VERA FELICIDADE DE ALMEIDA CAMPOS

Wassily Kandinsky dizia que tudo começa no ponto. Ele simplificou ou esqueceu, que o ponto é uma interseção de retas.
A afirmação de Kandinsky enfatiza idéias de começo, de origem, de causalidade. Quando se pensa em começo, em início, busca-se origens, busca-se causas do existente. Descobrir o início é a grande pergunta da ciência, tanto quanto açambarca toda idéia de criador e criatura, remetendo a um absoluto, a uma causa explicativa de tudo.
Onde começa o eu? Quando inicia o mundo? Qual a causa das grandes paixões e dos encontros não realizados, não continuados? Qual o instante abismal que colapsa perspectivas, o ponto responsável pela mudança, pela continuidade contingencial criadora de interseção? Frequentemente o entendimento destas questões é expresso através de variáveis deterministas, que procuram abranger e especificar o que é considerado causa explicativa.
Nada começa, nada finda, tudo continua e esta é a reversibilidade inexorável que cria os processos. São sequências de variáveis, interseções infinitas ocasionadas pelos processos, tanto quanto deles resultantes, que estabelecem pontos, variáveis, sistemas que insinuam começo e fim. Não há começo, não há origem, não há fim, não existe causalidade. O que existe são processos relacionais, movimentos convergentes e divergentes, criadores de posicionamentos, lacunas e abismos. Diante deles somos referenciados em contingências e estruturas que determinam nosso estar no mundo. Estas posições podem significar começos à medida que suas variáveis configuradoras são descontinuadas, fragmentadas. Buscar causas é negar a dialética dos processos, é transformar o processo da vivência humana em regra linear.
Na esfera psicológica, querer saber quando começa o medo, quando começa a dificuldade de relacionamento, por exemplo, e encontrar “traumas” como resposta, ou explicar pela situação de pobreza, de riqueza ou outras situações onde a rejeição era constante, são explicações que não globalizam o processo humano, são maneiras de amesquinhá-lo através do aprisionamento à referenciais históricos, à referenciais socio-econômicos. Medo é omissão diante do que ocorre, é a não resposta, a não participação, geralmente resultante de ter sido posicionado, arrebentado, despersonalizado em outros processos, em outras variáveis criadoras de atitudes, de comportamentos alienados.
Tudo começa onde acaba exatamente porque são insinuados parâmetros configuradores de realidades das quais se está diante. É a interseção de situações que impede a pontualização, tanto quanto permite a explicação globalizante. Imaginar começos, pontos de origem e causas é aristotélico, causalista, também cartesiano. Ato e potência, res extensa e res cogitans são abordagens lineares baseadas em tipificações, em classes, baseadas na divisão denso e sutil estabelecedora de dualismos e complexidade como a clássica idéia de matéria e espírito, de consciência como pré-existência do conhecimento, sede da alma, mais tarde sinonimizada como sujeito, favorecendo abordagens de viés introspectivo.
Penso que sujeito e objeto são aspectos de uma polaridade, não começam, nem terminam, não estão dentro, nem fora, são apenas polos de um eixo. Não há o mundo do sujeito (classicamente configurado como subjetivo pela filosofia e psicologias causalistas, principalmente as de fundamentação psicanalista), nem o mundo do objeto, da mundaneidade. Há um ser humano que percebe e isto é a dinâmica relacional do estar no mundo. Conceituações e denominações classificatórias de sujeito e objeto criam estagnações, criam divisões na maneira de enfocar o homem. É através da percepção que se estruturam o sujeito e o objeto. O ser humano não é sujeito nem objeto, ele é ser humano, que a depender da própria percepção, se configura em sujeito ou objeto, ocorrendo o mesmo em relação à percepção do outro - o outro ao me perceber configura a mim como sujeito ou como objeto.
Tudo começa no ponto, isto é, na interseção das retas que o configuram. Sabemos que a reta é uma infinita sucessão de pontos, consequentemente de interseções. Kandinsky sempre desenhou o relacional, apesar de achar que tudo começava em um ponto. Configurando a trajetória do ponto, ele sequenciava suas interseções.


sábado, 13 de janeiro de 2018

Ferocidade / Redes de crime e opressão


Ferocidade. Violência e submissão

Ferocidade

Redes de crime e opressão

4 JUNHO 2015, 
VERA FELICIDADE DE ALMEIDA CAMPOS

Ferocidade é característica de feras e também de seres humanos que se tornam violentos, desumanizados e ferozes. É rápido tornar-se feroz e é também fácil reduzir um ser humano a suas dimensões biológicas, às suas necessidades. É eloquente o depoimento abaixo e mostra como a interseção entre sistemas econômicos e sociais é uma regra de ouro, mantida entre opressores e oprimidos:
“ ‘Oito semanas’, recomeça o soldado barbudo, ‘oito semanas e tudo o que existe de humano no ser humano desaparece. Os Kaibiles descobriram uma maneira para anular a consciência. Em dois meses, pode ser extraído de um corpo tudo o que o diferencia dos animais. O que faz com que ele distinga maldade, bondade, moderação. Em oito semanas, você pode pegar são Francisco e transformá-lo em um assassino capaz de matar animais a dentadas, sobreviver bebendo só mijo e eliminar dezenas de seres humanos sem sequer se preocupar com a idade das vítimas. Bastam oito semanas para aprender a combater em qualquer tipo de terreno e em qualquer condição atmosférica, e para aprender a se deslocar rapidamente quando atacado pelo fogo inimigo.’ ” … “… kaibiles são o esquadrão de elite antissubversão do Exército guatemalteco. Nascem em 1974, quando é criada a Escola Militar que se tornaria o Centro de Adestramento e Operações Especiais Kaibil. São os anos da guerra civil guatemalteca, anos em que as forças do governo e paramilitares, apoiadas pelos Estados Unidos, se veem enfrentando primeiro guerrilheiros desorganizados e, depois, o grupo rebelde Unidade Revolucionária Nacional Guatemalteca. É uma guerra sem trégua. Nas malhas dos Kaibiles caem estudantes, trabalhadores, profissionais liberais, políticos da oposição. Qualquer um. Aldeias maias são arrasadas, os camponeses são trucidados e os seus corpos, abandonados para que apodreçam sob o sol inclemente.” - Zerozerozero de Roberto Saviano, Ed. Companhia Das Letras, pag.90-91
Sobreviver em regiões sócio-econômicas onde a desigualdade, tirania e medo predominam, é a sobrevivência limitada e determinada pelos sistemas opressores. Uma das maneiras de fugir da opressão maciça é trabalhar para o sistema, é ajudar as máquinas opressoras (tornando-se delator, torturador, etc). Outra maneira é arregimentar condições para violências pseudo reparadoras: roubar, matar, supliciar os que dispõem de dinheiro (não importa quanto), formando esquadrões e gangues de violência.
Para se manterem, as sociedades opressoras usam clandestinos, criam ferozes; foi assim, por exemplo, nos anos das ditaduras brasileira, argentina, uruguaia, chilena, com a formação de torturadores, tanto quanto agora é este mesmo suporte residual que se vê no tráfico de drogas, armas e sexo. Qualquer olhar atento para favelas, comunidades de baixa renda, revela este mosaico. Da mesma forma, no Leste europeu (ex União Soviética e seus satélites), após a Perestroika, vemos antigos dirigentes e líderes políticos, “promissores quadros do partido”, organizando bilionárias operações: redes de tráfico de armas, drogas e mulheres. Para realizar estas operações é preciso esvaziar o humano e fazer surgir feras capazes de manter os negócios. A mídia contribui e é fundamental na geração e manutenção dos desejos: a boa comida, a boa roupa e todos os fetiches de consumo e estilo divulgados e propagandeados.
Toda vez que não se aceita limites e restrições do que está acontecendo no presente, da condição socio-econômica, se fica reduzido à sobrevivência, à satisfação de necessidades e assim são criados complexados, pessoas que se sentem inferiorizadas por não serem ricas, não terem tido os brinquedos anunciados na TV, não morarem em apartamentos como os que possuem mais dinheiro. É um início de estruturação de ferocidade, posteriormente aprimorada, efetivada por variáveis de opressão estabelecidas pelos sistemas, pelas familias.
Este processo de não aceitação estabelece metas, desejos de realização, que também são responsáveis por retirar os pés do chão (sair do presente) e se agarrar aos desejos (metas), se agarrar em ilusões de melhora e a qualquer coisa considerada salvadora, desde exercer torturas para manter a ordem social vigente, à venda de drogas e armas para conseguir amealhar o primeiro milhão de dólares. É o esvaziamento humano gerado pela sedução do prazer, paraísos prometidos e nirvanas criadores de feras, tanto quanto de mártires (os que se explodem com bombas), esvaziamento mantido e ampliado por sistemas e situações opressoras.


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Hedonismo alienante / Desejos e barganhas

Toni Servillo em A grande beleza

Hedonismo alienante

Desejos e barganhas

4 MAIO 2015, 
VERA FELICIDADE DE ALMEIDA CAMPOS

Tudo que se quer ou que não se quer é passível de ser desejado ou rejeitado pelo outro. Este é um dos contextos onde as trocas e relacionamentos ocorrem. A comercialização de bens, de mercadorias é sempre uma troca, geralmente viabilizada pelo dinheiro. A moeda, os padrões de aquisição permitem a circulação de produtos e idéias nas sociedades.
A comercialização foi ampliada, atingindo também os relacionamentos humanos. É cada vez mais frequente trocar afetos e experiências sexuais, transformá-las em objeto de consumo, onde o preço varia em função de habilidades e enganos admitidos. É uma prática existente no dia a dia das sociedades, evidente entre prostitutas e michês, menos explícita ou não rotulada em outros relacionamentos. Muitos casamentos, uniões estáveis, amizades inabaláveis, compromissos seculares são acertos estabelecidos em barganhas não explicitadas.

Anita Ekberg em La Dolce Vita

O mundo moderno, no século XXI, facilita o que antes era problemático, quebra tabus, mas possibilita distorções: o prazer, o desejo podem ser realizados em uma rápida discagem ou digitação, conseguindo o que se precisa, na hora que se quer. Esta facilitação, frequentemente, impede a vivência autêntica, a vivência legítima. Tudo é produzido, até mesmo o desejo. Ao indivíduo só resta administrar e criar recursos: desde o dinheiro, às motivações para ter desejos e para realizá-los. São máquinas desejantes, como falavam Guattari e Deleuze, só que não mais resultantes de traumas e experiências anteriores, mas sim, guiadas por selos de garantia, slogans de felicidade, de liberdade sem preconceitos. Estes paraísos anunciados criam demandas, motivam. Os protagonistas não são apenas os considerados pervertidos, são, principalmente, curiosos motivados por ter experiências sem continuidade, sem compromisso, quase anônimas, apenas marcadas por prazer, onde o outro é transformado em um objeto, um produto a ser consumido, mesmo que isto implique em sua destruição após descarte.
O ser humano conseguiu encurtar a distância entre a fonte de produção e o consumo do produto, ao virar ele próprio, produto, produzido para produzir. Vivendo para o prazer que satisfaz, consequentemente apenas para realizar o que dá prazer, se autoconsome pelo posicionamento autorreferenciado, criado pela perda da dinâmica, pela inexistência do outro, reduzido a uma única dimensão: fonte de prazer. É o equivalente da síndrome autoimune, onde o próprio organismo se devora. Mercantilizar afetos, negociar relacionamentos e desejar satisfação é paradoxal, esvazia a própria barganha, cria autômatos dependentes do outro, assim como, automatizados dependentes da aleatória cotação de mercadorias: qualquer coisa serve e torna-se necessária. Uniões que acontecem em função de acertos, são, por definição, contingentes, consequentemente, flutuantes, e assim, para mantê-las, suge a necessidade de contratos, compromissos e ilusões. É uma perversão que também cria pontos de resistência, como por exemplo: esperar consideração, esperar ter prazeres no que é dado, no que é disponibilizado, mesmo que tudo seja realizado através de engano. Entrar neste processo requer constante verificação, requer garantias para assegurar novas barganhas; não há liberdade, não há amor, só existe ansiedade e compromisso.

Dona Flor e Seus Dois Maridos

Não se pode dar o que não se tem; não se pode ligar quando não existem elos; não é possível continuidade na dispersão; não é possível humanidade quando esta foi perdida nas trocas aliviantes, nas sedações alienantes dos desejos e possibilidades. É o império da automação, que dirige a maneira alienada, coisificada de se situar em relação ao outro. As drogas lícitas e ilícitas, as dependências afetivas, as insatisfações sexuais, o medo e o desespero são os sintomas resultantes e denunciadores de todo este processo de desumanização.


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Faulkner / Só que nossa terra não era como esta




William Faulkner

Só que nossa terra não era como esta


Só que nossa terra não era como esta. Só de caminhar por ela a gente sentia uma coisa. Uma espécie de fecundidade tranquila e violenta que satisfazia até a fome de pão quase.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Fuga / Evasão de dores e fracassos


Ilaria Del Monte, Antes de fugir, óleo sobre tela

Fuga

Evasão de dores e fracassos

4 ABRIL 2015, 
VERA FELICIDADE DE ALMEIDA CAMPOS

Frequentemente, as drogas, os vícios são fuga da realidade, uma maneira de se proteger da mesma.
Quando o presente é percebido como ameaçador, lidamos com isto de forma presentificada e estruturante ou lidamos com isto através de filtros - medos, desejos, ansiedades, valores -, perdendo autonomia, gerando conflitos, vivenciando tudo como insuportável seja na família, seja na escola, no trabalho, entre os amigos ou nos relacionamentos íntimos.

Ilaria Del Monte, O gabinete Norman, 2013, óleo sobre tela

Não se detendo no percebido, não se detendo na realidade, não integrando limites, o indivíduo cria deslocamentos, fugas que se expressam em sintomas, isolamentos e vícios (drogas lícitas ou ilícitas, trabalho, sexo, comida, redes-sociais, etc). A repetição imobilizadora - a tentativa de evitar tensões - configura o submisso, esvaziado, posicionado entre se sentir bem e evitar se sentir mal. Esta imobilidade adquirida cria pontos de tensão, dores equivalentes aos pontos criados por escaras. Quanto mais aumenta o processo de imobilidade, de subordinação, de falta de autonomia, mais se protege da dor, da frustração e mais atinge a impossibilidade de qualquer ação. Esta vivência atordoa, a realidade machuca. Drogas, vícios são os deslocamentos que se impõem para evitar a dor, para evitar o fracasso. Neste momento, a droga, a fuga da realidade, é transformada em proteção contra a realidade; é um amortecedor que permite conviver com humilhação, frustração, impotência, incapacidade, e assim se sentir capaz e operoso no “caça à droga” ou nos esconderijos perpetrados contra vigilâncias familiares ou policiais.
O drama humano começa quando as possibilidades de relacionamento ficam restritas, reduzidas às necessidades, desvitalizando o ser. Conceituar drogados como dependentes químicos é, paradoxalmente, uma generalização e uma redução (determinismo biológico), pois a partir desta conceituação, praticamente tudo pode ser entendido como droga: ecstasy, remédios, drinks socialmente compartilhados, café e alimentos diários, assim como sexo e a sensação de prazer advinda de aprovações e elogios. O organismo cria hábitos e dependências na busca de saciedade, de êxito, mas é a vivência psicológica, contextuada em bem-estar/mal-estar que vai estabelecer o vício. Viciados posicionados nas drogas ilícitas, no sexo, na comida, no trabalho, nos jogos, nas redes sociais, etc, restringem enormemente suas possibilidades, pois são fixados em seus desejos. Tudo converge para satisfazê-los e este objetivo passa a ser o estruturante do ser: as possibilidades de relacionamento ficam reduzidas à busca do que satisfaz, do que alivia dores e mal-estares, enfim, comer é ser, embriagar-se é ser, picar-se é ser, trabalhar é ser e assim por diante. O drogado, o fugitivo, é o esvaziado cheio de escudos, desculpas, alibis e propósitos. Fugir da realidade frustrante é uma tentativa de se proteger e de evitá-la. A dor, o medo, a dúvida são brumas que incapacitam a visão. Nada é distinto, nem distinguido. A droga (alcool, cocaína e outros) funciona como lanterna que evita buracos, embora faça submergir neles. Estas novas vivências, no nível de sobrevivência, no underground, colocam o mundo de ponta-cabeça ao devolver e criar novos paradigmas e sintaxes.

Ramon Bruin

A reaprendizagem de situações vai permitir sobrevivência dentro deste emaranhado estrangulador. Fugir é uma maneira de encontrar novas portas, fechadas ou abertas a novas fugas. Fugir é o deslocamento por excelência, que destrói a individualidade, transformando o indivíduo em um braço a ser picado, uma boca para fumar, um nariz para cheirar. Esta desconstrução cria parcializações infinitas e muitas vezes, irrecuperáveis. As atitudes transformadoras iniciam quando alguma força de coesão surge. Buscar polarizantes, deter a fuga, é necessário para desencadear mudanças nestes casos e sempre. Como costumo dizer, se considerarmos droga como sinônimo de remédio, como sinônimo de alívio, precisamos verificar seus efeitos colaterais; se pensarmos em droga como fonte de prazer, teremos que arrancar o homem do vazio das gratificações e satisfações, teremos que humanizá-lo; e enfocando droga como índice de transgressão, é necessário verificarmos o que foi transgredido.
Independente do aspecto orgânico do vício (dependência química reforçada pelo núcleo acumbente) sua vivência é psicológica e qualquer psicologia que reduza o ser humano à sua condição biológica ou à sua condição social, cultural, econômica, falha, pois parcializa, limita o humano às contingências e necessidades satisfeitas ou insatisfeitas, oferecendo apenas soluções adaptadoras. A fuga da realidade é transformada quando existe questionamento, aceitação, vivência do presente, ou seja, quando existem estruturantes de autonomia, estruturantes de possibilidade de relacionamento.




terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Dedicação e desespero / Problemas e soluções


Fabrizio Michelucci, Descoberta da memória 

Dedicação e desespero

Problemas e soluções

4 MARÇO 2015, 
VERA FELICIDADE DE ALMEIDA CAMPOS

É frequente se procurar psicoterapias para remoção de sintomas, para resolução de problemas que se considara causados pela família, pelos relacionamentos, pelo trabalho, pela sociedade, sempre pensando que se tem problemas e nunca que se é o problema ou que as problemáticas são constituintes de seu estar-no-mundo enquanto atitudes, enquanto comportamentos.
Sempre que se busca solução de alguma coisa, isto pode ser feito dedicando-se aos dados, ou seja, às estruturas problemáticas ou afastando-se das mesmas na tentativa de esclarecê-las.

Patrizio de Magistris, A tela branca. óleo e técnica mista sobre tela.

Detendo-se, dedicando-se ao problema se consegue percebê-lo em sua totalidade constitutiva, consequentemente, a resolução é alcançada. Buscar outros contextos para solução de problemas dificulta e ainda cria ilusões, distorções, que levam a perceber soluções onde elas não existem.
Para solucionar é preciso problematizar. O questionamento à própria estrutura do problema gera sua solução, mas, frequentemente os questionamentos são feitos a outras estruturas, considerando-as solucionadoras. Na educação de filhos é frequente esta distorção; acredita-se que mudando as amizades, criando novos interesses, muda-se o comportamento inaceitável do filho, sem perceber que as motivações comportamentais do mesmo, resultam de frustrações, medos e não aceitações de si, gerando suas escolhas e propósitos. Na sociedade, um dos grandes erros da humanidade foi buscar soluções dos problemas individuais na esfera coletiva.
Não é o todo que determina as partes, é a relação da totalidade com suas imanências e aderências, que as configuram. Quando se pensou em resolver o problema da necessidade de alimento, criou-se a propriedade; o público e o privado transformou a parte - ‘alimento’ - em tesouro fundamental – totalidade - convergência a partir da qual todas as divisões foram estabelecidas: donos dos alimentos, alimentos sem dono e os sem alimentos, por exemplo.

Edvard Munch Noite ao longo da avenida Karl Johan, 1892 - óleo sobre tela

Quando as percepções mudam, novas configurações surgem e este processo infinito possibilita determinação, solução e problematização. Nas crises cotidianas, nos dilemas existenciais, aceitar que se é o problema é o início de uma mudança. O indivíduo começa a se responsabilizar por suas problemáticas, se incomodando, percebendo o desagradável de sua aparentemente confortável alienação. Quanto mais se insistir que se está sendo atacado, alvejado por problemas, mais dificuldades surgem, desde que a antropomorfização do problema - pensar que ele existe independente de si - é uma divisão um deslocamento fragmentador. Da divisão inicial - eu e o problema - chega-se a uma multiplicidade dos mesmos. O indivíduo dividido, fragmentado, pontualizado transforma a vida em uma busca de objetivos: consertar o erro, mudar o que atrapalha etc.
Sempre que se busca resolver problemas fora da situação que os engendrou, se candidata a soluções impossíveis, a problemas nunca resolvidos. E assim, a maneira de perceber e reagir a estas situações é dizendo que a vida é assim mesmo, as coisas não se resolvem sempre. Esta conformação é a distorção que conduz a rastejamentos, humilhações, perda de disponibilidade, busca eterna de salvadores. As dependências e oportunismos são alimentadas nestes padrões distorcidos.


segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Mudar não é substituir / Problemas transformados em justificativas


Mudar não é substituir

Problemas transformados em justificativas

4 FEVEREIRO 2015, 

Em meu livro Mudança e Psicoterapia Gestaltista afirmo que conceituar comportamento como movimento é fundamental para responder às questões humanas, sejam elas vivenciais ou teóricas. Extraio deste conceito implicações para o processo humano, seu desenvolvimento, suas problemáticas, seu tratamento. Estar-no-mundo implica em mudar, em movimentar-se e a continuidade da mudança é fundamental, pois o desenvolvimento humano é uma continuidade de teses negadas, antíteses afirmadas, sínteses constituidoras de novas teses, antíteses etc em outras palavras, desenvolvimento humano é mudança, é superação do estabelecido, do contexto de ajuste, é atualizar-se, é responder aos questionamentos, aos estímulos do estar-no-mundo.
Nem sempre a mudança tem o sentido de disponibilidade e apesar de sempre ser descontextualização, ela pode criar manutenção ou uma organização rígida. Em estruturas divididas, pulverizadas em sintomas, a mudança pode corresponder à neutralização de possibilidades, onde os problemas são transformados em justificativas e aí a estagnação se instala, surgem posicionamentos, criando contextos perceptivos estáticos, autorreferenciados.
Nas situações de permanência e estagnação se realizam trocas, não são mudanças, são apenas substituições. Quando os contextos permanecem, tudo é percebido em função desta permanência. Toda percepção (Gestalt Psychology) se dá em termos de Figura e Fundo, percebemos o elemento Figural, o Fundo nunca é percebido, embora seja estruturante contextual da percepção; existe reversibilidade, o que é Figura transforma-se em Fundo e vice-versa: percebemos uma pessoa na rua, por exemplo, a pessoa é Figura e a rua é Fundo; quando se chama a atenção para a rua, a rua passa a ser Figura e a pessoa passa a ser Fundo. Esta reversibilidade é a dinâmica do processo perceptivo. A estaticidade quebra a dinâmica, gerando a permanência do Fundo, da moldura, criando uma série de estigmas, de preconceitos, tanto quanto, certezas e confiança. Pensar em alguém como um rapaz de ‘boa família’, de ‘boa aparência’, sempre gentil, educado, sem perceber que ele é um manipulador, um mentiroso contumaz - mesmo quando se é vítima direta de suas manipulações - é um exemplo, deveras comum, de estagnação perceptiva: o determinante da percepção é a moldura mantida (‘boa família’, ‘boa aparência’, ‘gentil’, ‘educado’). Tudo é percebido no contexto desta variação: transformação do que é evidente, do que contraria todas as certezas prévias, em dados irrelevantes.
Quando convicção - oriunda de garantias outras que não as vivenciadas - e medo substituem vazios motivacionais, isto se constitui em instrumento, ferramenta que permite viver: construir casa, empresa, familia e relacionamentos vários. O denso substitui o sutil, tanto quanto, o corporifica. Tudo converge para a preocupação de ficar bem, de ser aceito, ser reconhecido através de seus funcionamentos, de seu status. Este processo é criador de imagens, oportunismos, medos, ansiedade, agressividade, timidez, faz-de-conta, vazio, tédio, angustia que sempre denunciam sua humanidade amassada pelos compromissos criadores de limites esvaziadores.
Mudar resulta de dispensar padrões e contextos de referência, de descobrir o que está aqui e agora, o que é e o que não é. É o presente percebido no contexto do presente. Esta interrupção cria descontinuidade, quebra contextos anteriores e faz surgir o novo. O anterior descontextualizado é o novo, pois sua referência, seu significado muda. Relacionar-se com o novo só pode ser estabelecido quando há disponibilidade - isto é a mudança.
Não havendo disponibilidade, substitui-se e tudo permanece, tudo pode ser substituido e parecer igual, tanto quanto, diferente, quando apenas se percebe parcializadamente. A distorção parte/todo cria um infinito de substituições e transmite a variada experiência que é apenas colorir o preto e branco do vazio, das expectativas. Quanto mais se substitui, mais se mantém, menos se muda e transforma. Os mestres da exploração e conveniência política já diziam e dizem que é preciso “mudar para manter”, ou seja, sabem como substituir figuras, imagens e assim parcializando, transformam totalidades em mosaicos labirínticos.
No nível individual, “mudar para manter” (cuidar do sintoma) é a regra constante quando se transforma problemas em justificativas. Os conflitos criados por este artifício, transformam o problema em apoio (justificativa) e também em opressão (impossibilidades conflitivas).